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terça-feira, 11 de setembro de 2012

"Uma andorinha só não faz verão, mas pode acordar o bando todo."

Um sarau (do latim seranus, através do galego serao) é um evento cultural ou musical realizado geralmente em casa particular onde as pessoas se encontram para se expressarem ou se manifestarem artisticamente. Um sarau pode envolver dançapoesia, leitura de livrosmúsica acústica e também outras formas de arte como pintura e teatro. Evento bastante comum no século XIX que vem sendo redescoberto por seu caráter de inovação, descontração e satisfação. Consiste em uma reunião festiva que ocorre à tarde ou no início da noite, apresentando concertos musicais, serestas, cantos e apresentações solo, demonstrações, interpretações ou performances artísticas e literárias. Vem ganhando vulto por meio das promoções dos grêmios estudantis e escolas.
Em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sarau

Este post é meramente uma homenagem...

A poesia acima é do dito cujo.

Em 2010, conheci o Sarau do Binho, que acontecia num bar, na esquina de uma rua do Campo Limpo. Como disse Débora Marçal, do grupo de teatro As Capulanas, "uma encruzilhada feminina", porque terminada em "t". Ou seja, do ponto de vista místico-religioso, já seria uma esquina com uma concentração de energia forte. Sendo um bar, então, nem se fala... Exus, Zé Pilintras (e Pilantras), Pombas Giras e outras entidades noturnas, certamente, se encostavam em uma das mesas para ouvir, apreciar, refletir e rir (por que não?), das poesias, músicas, causos e outras manifestações de arte apresentadas pelos frequentadores do Sarau do Binho.
Para a vizinhança do entorno, aqueles deveriam ser um bando de loucos desocupados, como os eram para mim também. Pois é, o desconhecimento é a pior das armas, quero dizer, ter um conceito antes de conhecer, o preconceito. Moradora da Zona Oeste desde 2005, eu nunca havia ouvido falar deste Sarau. Morei três anos num local muito próximo do Sarau do Binho, mas não o conhecia. O mundo acadêmico não me deixava enxergar além disso, das citações, da competição, por vezes, não percebida, não consciente, em busca de um determinada (re)conhecimento; do dia a dia do trabalho certinho, acorda às 06h, trabalha até as 18h, etc. Não tinha tempo pra muita coisa, mas teria para ir ao Sarau do Binho se tivesse sabido dele antes. Gostaria de ter aproveitado casa segunda-feira com essa gente diferenciada.
Conheci um moço aí, bonito, naturalmente elegante, inteligente, meio maluco, meio sensível, meio viajante (em todos os sentidos, territoriais e mentais), que me apresentou o Sarau do Binho. Moço que hoje é meu companheiro de ideias, amores, loucuras e tremores.
Cheguei quieta com o olhar desconfiado. O Binho estava com metade da cabeça com barba e cabelo e a outra sem, toda raspada. Meio duas caras. Isso já me chamou a atenção e pensei: "que cara louco!". Depois fui confirmando que ele era louco mesmo, desses loucos de pedra que desafiam o sistema a partir de ações pontuais, aparentemente despretensiosas; ações voltadas à cultura, que desafio mais perigoso.
Em meio às apresentações no pequeno palco com fundo vermelho e amarelo, às cervejas, pastéis e panquecas, às risadas estridentes, os artistas iam se apresentando, mostrando suas ideias, suas poéticas, seus ideais, suas críticas. E as pessoas iam se educando. Se os universitários sentam numa mesa de bar para conversar com os professores após as aulas, o povo das periferias, mas precisamente do Sarau do Binho, sentava com o Binho e com seus escudeiros de Sarau: o poeta Luan Luando, o MC Zinho Trindade, a poeta Tula Pilar e seu filho pródigo Pedro, o poeta e educador Allan da Rosa... Ali conheci grandes artistas ainda não reconhecidos pelo mercado e sistema de arte. Não sei se não reconhecidos ou se há um receio, medinho das proposições dos mesmos. Assiti as Capulanas, As Clarianas, o Umoja, o Preto Soul, o Clariô, o Caruru, o Ualdo, enfim, vários artistas com algo de qualidade (por vezes, muita qualidade), para mostrar, para compartilhar. E era uma delícia ir para lá todas as segundas-feiras, desde que eu conheci o Sarau do Binho, quase uma obrigadação espiritual. Como disse Rafael Franja, menino esperto profissional: "era como uma religião", algo assim, como um culto, o nosso terreiro, a nossa igreja. Até nos meus dias de tristeza profunda, este Sarau me dava um alento. Já fui para lá com o coração estilhaçado... Engraçado que o Binho e a Suzi, a companheira de uma vida, de luta, são tão sensíveis que sempre perceberam sem falar muito, mas sempre com um sorriso, um abraço, um carinho na hora certa, coisa rara hoje em dia, carinho.
O Binho e a Suzi têm carinho e conhecimento para compartilhar com as pessoas, são sacerdotes da cultura humanista, a que forma pessoas sem esperar nada em troca a não ser seres humanos mais críticos, bem informados e sensiblizados uns com os outros.
Neste dia 03 de setembro aconteceu o último Sarau do Binho neste espaço, neste bar. Um Sarau onde cada um levou um alimento e uma bebida. 
Foi lindo, foi melancólico...
O Sarau do Binho continua em outros espaços como o do grupo de teatro Clariô. Acompanhe a agenda:

Há outros saraus na cidade de São Paulo, nenhum como o do Binho, claro. Entretanto, é necessário fortalece-los para que continuem com seus objetivos de propagar e democratizar a arte, e o melhor, o fazer arte. 
Na "Agenda da Periferia" há mais informações sobre cada um deles e as programações respectivas:
www.agendadaperiferia.org.br/

Não deu para fotografar todo mundo, mas com os retratos abaixo eu gostaria de agradecer a todas as pessoas que conheci neste Sarau, que me fez melhor do que eu era.


Binho, das pessoas mais inteligentes, humildes e queridas que conheci nesta vida.  Idealizador do Sarau que leva seu nome.
Binho e Tula Pilar no palco. Esta poeta tem encantado a todos com suas poesias sinceras e ousadas, com sua postura ativa e altiva e com seu sorriso. Um dos presentes que ganhei frequentando o Sarau, se tornou mestra e amiga.
Outra poeta que tem demonstrado ser mais que dançarina e atriz, faz parte da Cia de Arte Negra, As Capulanas, e ainda tem tempo para compor sobre um erotismo e sexo que vai do doce ao amargo. 
Josiel, sempre breves saudações.
Douglas, um dos frequentadores.
João Claudio ou simplesmente J. Cineasta, poliglota, viajante e inteligentíssimo. Além de ser uma excelente companhia para uma cerveja.
Martinha, linda, atriz e cantora do Grupo Clariô de Teatro.
Tula Pilar.
Uma destas colegas que a gente comversa, conversa e nunca pergunta o nome, sabe? Sempre trocamos sorrisos e saudações.
Alisson da Paz, outra cineasta frequentador do Sarau do Binho.
Gil Marçal, coordenador do VAI e frequentador do Sarau.
Carla Lopes, produtora cultural, atriz e querida!
Manoel Trindade, quem me apresentou o Sarau do Binho e mais um monte de coisas. Percussionista e educador musical.
Daniela Embon, produtora e cineasta, ou trabalha com cinema. Meiga e feliz, assim que sempre vi a Dani por lá.
Allan da Rosa, educador, poeta, capoerista e uma das pessoas mais queridas que conheci por lá. Com a cabeça cheia de ideias e o coração repleto de afetos.
... poesia...
O Fábio Véio, da banda Preto Soul.
Serginho Poeta.
Moça que a gente conversa mais via Facebook, me esqueci do nome, mas não das conversas.
Caco, do coletivo de poetas Maloqueirista.
Este senhor sempre declama de forma inflamada, alma inflamada.
Ane Alves, simplesmente "darling".
Jeny e Day, queridas. Jenyffer Nascimento tem se mostrado uma grande poeta, além de dançarina nas horas vagas. 
Mara Esteves, pura simpatia e engajamento.
Augusto Cerqueira e sua amiga que conheci neste dia. As poesias dele são de quebrar tudo.
Pablo, sem esconder a tristeza com o fechamento do Sarau do Binho. Esconder para quem e para quê?
Renato Palmares, outros dos poetas.
O conheço por Índio, apenas isso. Com sorriso sempe iluminado.
Cineasta e falante Peu Pereira, sempre pronto para reflexão, para trocar ideias.
O poeta Paulo e a coordenadora de blibliotecas da SMC Rosa Falzoni: muito carinho!
Helena Silvestre, sempre na luta pelo povo!
Carol, conjunção de juventude, beleza e politização. Não se engane!
A irmã do Binho, não conversamos nada, ela é bem quieta, mas sei que ela é poeta.
Carlos Carlos, cinegrafista radical e necessário.
Baltazar, poeta MC da banda Preto Soul que surgiu no Sarau do Binho.
A Ísis, assim como eu, era uma frequentadora plateia, destas sempre atentas.
Guinão, idealizador da banda Preto Soul.
O MC e poeta Zinho Trindade.
Muitos sorrisos...
... muitos afetos...
... muitos cantos...
... resistência... Olha, nosso estandarte!
O querido Will Cavagnolli, fashion rocker!
...olhares... 
A Cris, a Suzi Soares (maravilhosa!) e o Pedro, grande poeta aos  16 anos...
Will e sua filha Ceci. 
" Eu que estou te filmando".
Dêssa Souza, da banda Preto Soul e Ceci. 
... poesia, mais um pouco...
Fino Du Rap. 

Michelle Correa, conheci enquanto ela ainda trabalhava no bar do Sarau do Binho. Ela estreou os cabelos ruivos no último dia de Sarau. Ficou mais linda ainda.
Adriano, poeta.
Thiago, que desenvolve um trabalho importante e necessário na Casa da Mulher.
Fernanda Mourão, maquiadora e menina-mulher.
Pow!!!
Nay Mahin, dançarina e linda, nas horas vagas.
Victor, contrabaixista e colega de festas, na atualidade.
Isso é gente bonita, não gente alta, magra e mal humorada.
Elaine Geissler, cantora e ruiva.
Nóis!
...Nóis...
...Nóis... E depois de Nóis...
...É Nóis de novo... Palavras de Luan Luando, poeta da trupe do Sarau do Binho.
 Ah, e gostaria de lembrar destes nomes, pessoas que vi e conheci no Sarau do Binho: Elizandra Souza, Guma Fotógrafo, Giva, Juliana Barros, Leandro Nascimento, Akins, Claudinho, Kátia Paixão, Vitória, Carolzinha Teixeira, Maria Pazzini, Naruna Costa, Naloana Costa, Fernanda Coimbra, Cristina Roseno, Flávia Rosa, Débora Marçal, Adriana Paixão, Alânia Cerqueira, Euller, Toninho Poeta, Marquinhos, Sidnei.

sábado, 1 de setembro de 2012

Fragilidade:"a construção do desabar"

Estava aqui a pensar comigo sobre uma conversa que tive recentemente sobre o futuro, a minha vida e outras coisas que poderiam se tornar planos, e como cada um de nós possui uma visão diversa sobre tudo isso. Mesmo quando a gente acredita que existe um norte, um firmamento, uma certeza em relação às nossas escolhas, desejos, planejamentos, uma simples conversa mais sincera, mais profunda, sem máscaras, pode colocar tudo a perder. Melhor, pode te fazer repensar tudo isso. Tudo o que foi construído pode desabar. O meu interlocutor me disse:" planejamos e, de repente, o planejado não acontece e pode dar tudo errado, aí vem a frustração"... De fato, faz tempo que tenho pensado em tentar, sempre tentar para justamente não ter a desculpa do medo da frustração e ficar ainda mais frustrada porque poderia ter dado certo. O medo da frustração é uma grande covardia, não gosto desse medo de colocar o pé na água fria. Afinal de contas, se você chegou até tão perto do rio, entre, ora pois. Esse meu interlocutor, agora mudando tudo para metáforas, estava a falar sobre a "construção do desabar", ou seja, vamos planejando e construindo sem garantias, e se der errado, pode desabar. Uma colega de universidade, hoje artista famosa, Tatiana Blass, deu este título ao seu trabalho de conclusão de curso. Parece paradoxal, entretanto, faz sentido ao se pensar nas idéias deste meu interlocutor. Como disse o cantor Crioulo na reunião após o fechamento do Sarau do Binho (querido!): "somos frágeis". A fragilidade, antes da inteligência, deveria ser a premissa para ser humano. Ao mesmo tempo em que somos uma potência, mesmo um indivíduo sozinho pode ser uma, somos realmente delicados. Uma doença simples, uma picada de inseto, um alimento mal cuidado, um tombo, um sentimento como o ódio que vira amargura ou o amor que se transforma em sofrimento, uma crítica destrutiva, uma palavra mal colocada, tudo isso pode nos afetar profunda e mortalmente.
Depois dessa conversa, eu que me sentia tão no caminho que eu queria e com alguém que estava a fim de caminhar no mesmo passo, no mesmo ritmo, me senti novamente em um solo, um solo não ensaiado. Voltei a ser uma andarilha, não sem destino e não errante. Que seja um lindo solo, então... Uma dança contemporânea bem dançada.
Quantas vezes a arte não refletiu sobre esta nossa fragilidade, sobre esta humanidade que pode se esvair a qualquer momento? Pinceladas que se sobrepõem como que apagando momentos por meio de gestos; linhas finas sutis difíceis de se enxergar; coreografias quase impossíveis de se sustentar o movimento; cores de uma luminosidade e suavidade tão grandes que nos cegam o olhar...
Há obras que traduzem uma fragilidade de maneira única. Seguem aqui algumas, talvez metáforas para o desabar interior destes artistas.
Ah, e venho pensando que só dá pra confiar em si, cada confiando em si mesmo, nas suas crenças, nas suas angústias, nos seus desejos...

O fotógrafo Gustavo Lacerda desenvolveu esta série de retratos maravilhosos no qual pretendeu registrar a natureza frágil e delicada das pessoas albinas. Projeto premiadíssimo, ele diz que sempre se interessou pelo assunto. Entrar no site dele e ver todos os retratos é um exercício de aguçamento da sensibilidade e uma forma de revisar nossos conceitos sobre o belo.
http://www.gustavolacerda.com.br/


Trabalho da citada no texto, Tatiana Blass. Este pertence à série "Cão Cego", mas entrando no site da artista ´´possível conhecer muitos trabalhos onde a efemeridade, a inconstância e brevidade são atributos presentes. A considero das melhores artistas do mundo na atualidade, gosto muito desta poética.
http://www.tatianablass.com.br/

É possível afirmar que Tatiana Blass é herdeira de Mira Schendel (1919 - 1988), a artista suíça radicada no Brasil. Ela explorava com assiduidade folhas de papel com textura frágil, as possibilidade dos traços a partir da pressão exercida pela mão, o gestual e a sensação era a de algo por vir, por completar: signos, linhas, formas...Neste trabalho sem título de 1964 é a imprecisão deste quadrado sobre este branco que não é tão branco assim que demonstram certa precariedade...

Sidney Amaral é dos artistas que mais admiro, pelo domínio técnico e pelas ideias fantásticas. Neste série de autorretratos ele se representa em muitas situações inusitadas. Aqui, ele desistiu de lutar, como que vencido pela pureza do vestido de noiva. O que será que ele quis dizer? Fico muito curiosa em relação a este trabalho. 
Aqui dois trabalhos do inglês Andy Goldsworth, um dos grandes nomes da Land Art, esta arte feita na natureza e com coisas que se referem à ela. Gosto demais da poesia e da fragilidade que existem em suas obras.

Para finalizar este post, segue aqui este lindo trabalho de Brígida Baltar "A coleta da neblina", performance na qual ele tenta colher essa atmosfera feérica. 
Trabalho da artista Larissa Glebova, cadeiras em miniatura com almofadas  contendo desenhos bordados em fios de ouro. Cada uma das almofadas representa um dos nossos órgãos vitais. Ela tem optado por linhas delicadas, brancos profundos e sentimentos escancarados. Num primeiro olhar muito delicados e sutis, num segundo olhar sentimentos aflorados, acalorados, perturbados. 

sábado, 25 de agosto de 2012

Marilyn Monroe: a grande homenageada do mês!


Recebi a notícia da nova exposição do Museu Afro Brasil, que abriu no dia 07 de agosto, de minha amiga dançarina e antropóloga Luciane Ramos com muito espanto e decepção: "A sedução de Marilyn Monroe".
Pessoalmente não considero Marilyn (1926 - 1962) a grande atriz que a mídia deseja fixar em nossas mentes. E não acho que sua beleza seja fascinante, hipnotizante, única, dentre outros adjetivos um tanto hiperbólicos que são utilizados quando muitos se referem à sua figura.
Assisti alguns filmes nos quais ela contracena, como o delicioso "Quanto mais quente melhor" (1959), de Billy Wilder. Muito bom, muito engraçado e com atores maravilhosos no elenco como o Jack Lemon (1925 - 2001), que minha geração conheceu bem idoso e Tony Curtis (1925 - 2010). Coisa de cinéfilo. Ela estava muito bem no papel, neste filme engraçado que é uma comédia deliciosa do tipo que não vemos mais hoje em dia, com Malicia, entretanto, sem peitões balançando (acho que porque tinham aqueles sutiãs armaduras).
Certamente, o fato da loira ter falecido na flor da idade, aos 36 anos, e de forma trágica e inexplicável, como ocorreu com outros ícones da cultura pop como Jimi Hendrix (1942 – 1970), Janis Joplin (1943 - 1970), Elis Regina (1945 – 1982), dentre outros que faleceram nos últimos anos, fez com que sua perda se tornasse muito impactante, tendo em vista que era uma atriz famosa, com muitos fãs  e que ainda estava em atividade. Gostamos destas histórias trágicas. Se não gostamos, ao menos as alimentamos comprando livros, lendo notícias etc. Ou seja, fortalecendo e propagando o mito.
O Museu Afro Brasil, como diz o curador Sr. Emanoel Araujo, é, antes de tudo, um museu de arte. Só por esta definição ouvida durante os muitos anos nos quais trabalhei na instituição, já é possível notar a incoerência da exposição proposta que trata do fortalecimento da imagem de Marilyn Monroe com base na festejada sensualidade da atriz. Não são seus dotes dramáticos, portanto, artísticos, o foco deste acontecimento, mas sim o enaltecimento de sua figura como a da mulher fatal e irresistível. Não são os papéis interpretados por ela que são citados e apresentados aos visitantes, mais sim seus atributos físicos interpretados por vários artistas por meio de suas obras de arte.

Poderia aprofundar este texto apontando outros pontos desta incoerência, mas pensar neste museu como espaço de arte que homenageia uma mulher branca e loira por sua sensualidade e erotismo, já é o suficiente para percebemos como esta exposição está absolutamente deslocada.
Para além disso, é preciso lembrar que o Museu Afro Brasil foi aberto em 2004 sendo considerado uma ação afirmativa. Segundo documento elaborado por funcionários da instituição, o Museu Afro Brasil tem como missão e visão:

- Promover o reconhecimento, valorização e preservação do patrimônio cultural brasileiro, africano e afro-brasileiro e sua presença na cultura nacional.
- Ser instituição de referência em ações museais, unindo História, Memória, Arte e Contemporaneidade voltadas, prioritariamente, à cultura brasileira, africana e afro-brasileira.

Deste modo, me parece absolutamente fora de contexto a realização desta exposição em homenagem à diva platinada.
Fico aqui imaginando os professores que se preparam durante semanas ou meses, para conseguir levar seus alunos ao Museu Afro Brasil e, assim, ampliar os repertórios dos mesmos em relação à Lei 10.639/03; que com muita dificuldade conseguiram transporte, autorizações, por vezes, alimentação, para uma manhã ou tarde na qual seus estudantes se defrontariam com as imagens e biografias de personalidades basilares da história dos afrodescendentes em nosso país, para além dos outros aprendizados. 
Penso naqueles educadores que com muito custo, conseguiram demonstrar aos seus alunos que à despeito do que prega as várias mídias que exaltam constantemente o padrão branco como o ideal e único, que os negros e mestiços são diferentes deste padrão, e que reside nesta diferença as qualidades estéticas deste segmento étnico. Que sim, a pele escura, os narizes largos, os lábios maiores, os cabelos crespos, que todas estas características às quais chamamos de fenótipo, são belas se não tivermos como norteadoras as características do segmento branco.
Vislumbro estas crianças e adolescentes ansiosos por se depararem com as culturas africanas e afro-brasileiras: o que encontraremos neste Museu Afro Brasil? E, ao adentrar no espaço repleto de mistérios, porque os museus ainda representam um enigma para os que não o frequentam habitualmente, vêem várias obras de arte, representando Marilyn Monroe e, especialmente, preparadas para esta homenagem.

O que ocorre? Faltam mulheres negras que possam ser homenageadas e reverenciadas? Por que esta exposição não está em espaços mais adequados como o Museu da Imagem e do Som, o MIS?
Por que não Lélia Gonzalez (1935 – 1994), a primeira intelectual negra de nosso país? Ou ainda, Sueli Carneiro, filósofa e criadora da ONG Geledés? Ou Raquel Trindade, pesquisadora, pintora e dançarina, herdeira do Legado do poeta Solano Trindade? Por que essas dentre tantas outras figuras femininas negras não são temas de exposições na instituição? 
Por que ressaltar as qualidades sedutoras e Marilyn Monroe, colocando novamente as mulheres, de modo geral, no papel de objetos do desejo? 
Tenho pensando muito a que se presta esta exposição. Que o curador da instituição é um homem visionário, ousado, desafiador deste sistema que estagna isto é irrefutável. Entretanto, o que pretende com a polêmica exposição? O que ganhamos nós cidadãos, negros e brancos, com esta mostra em museu que pretende salvaguardar, propagar e visibilizar a história dos afrodescendentes em nosso país. História esta tão omitida, forjada e eclipsada...

E daí que o tatatatatatatavó de Marilyn Monroe fosse negro? Essa foi uma das explicações que ouvi por aí. Tsc, tsc, tsc, avançamos muito com a criação deste museu, sem dúvida que muitas exposições exemplares e fundamentais já passaram por este espaço, como Brasileiro, Brasileiros, O Benin está vivo ainda lá, entre outras, mas esta se mostra como um retrocesso: três passos para frente, dois para trás.

A filósofa Sueli Carneiro, em alguns de seus textos como "Enegrecendo Feminismo" e "Mulheres em Ação", realiza profundas críticas à exacerbada exposição de loiras em nossa sociedade. Acredito que suas palavras servem para complexizar a exposição citada, demonstrando que é uma homenagem um tanto inadequada se pensarmos no contexto brasileiro:

Nesse sentido, racismo também superlativa os gêneros por meio de privilégios que advêm da exploração e exclusão dos gêneros subalternos. Institui para os gêneros hegemônicos padrões que seriam inalcançáveis numa competição igualitária. A recorrência abusiva, a inflação de mulheres loiras, ou da “loirização”, na televisão brasileira, é um exemplo dessa disparidade.

E mais...

Em relação ao tópico da violência, as mulheres negras realçaram uma outra dimensão do problema. Tem-se reiterado que, para além da problemática da violência doméstica e sexual que atingem as mulheres de todos os grupos raciais e classes sociais, há uma forma específica de violência que constrange o direito à imagem ou a uma representação positiva, limita as possibilidades de encontro no mercado afetivo, inibe ou compromete o pleno exercício da sexualidade pelo peso dos estigmas seculares, cerceia o acesso ao trabalho, arrefece as aspirações e rebaixa a auto-estima.
Esses são os efeitos da hegemonia da “branquitude” no imaginário social e nas relações sociais concretas. É uma violência invisível que contrai saldos negativos para a subjetividade das mulheres negras, resvalando na afetividade e sexualidade destas. Tal dimensão da violência racial e as particularidades que ela assume em relação às mulheres dos grupos raciais não-hegemônicos vem despertando análises cuidadosas e recriação de práticas que se mostram capazes de construir outros referenciais.

Segundo Antonia Quintão, historiadora citada por Carneiro:

...a exclusão simbólica, a não-representação ou distorções da imagem da muher negra nos meios de comunicação são formas de violência tão dolorosas, cruéis e prejudiciais que poderiam ser tratadas no âmbito dos direitos humanos.


Nas palavras do curador:

A sedução de Marilyn Monroe

O Museu é um espaço de reflexão cultural, ele também exemplifica o modus operandi de uma sociedade, o significado social de um povo e sua visão estética. Esses são fatores pelo quais um povo sedimenta seus princípios civilizatórios.

A definição tipológica de um museu não o impossibilita nem pode ser entrave para as diversas discussões que essa própria sociedade repre
senta e apresenta.
Os museus, portanto, são espaços abertos como palco onde a cultura material e imaterial de um povo possa estar viva e latente, revivendo fatos e acontecimentos recentes ou passados da nossa memória e da nossa história.
A globalização nos absolveu do complexo de culpa, de poder olhar o mundo como coisa nossa, sendo assim a exposição sobre os cinquenta anos da morte da atriz norte-americana Marilyn Monroe e o drama de sua vida pertencem a todos como grande fenômeno pop do inconsciente coletivo nos quatro cantos do mundo.
Isso responde a todos aqueles que acham estranho essa exposição do Museu Afro Brasil.
Não quero pensar numa ponta de racismo em limitar os conteúdos das exposições aqui realizadas, elas são elucidativas para enriquecer as expressões de muitos povos como africanos, europeus, americanos, brasileiros, enfim, interessados na memória, na vida, na arte, na história em volta de nós.

Emanoel Araujo

Diretor Curador

Exposição "A Sedução de Marilyn Monroe" - Museu Afro Brasil

Horário de visitação: Ter/Dom - 10h às 17h
Entrada Gratuita.


Bem, não podemos ser escravizados por um "modus operandi" que tem por princípios implícitos justamente nos excluir e omitir a nossa importância para a história do Brasil e do mundo.
Você, que dedicou alguns minutos de seu dia para ler este texto que, talvez tenha agregado alguma reflexão ou informação nova, ou ainda, te fez pensar no quanto "eu" sou racista e reacionária por não compreender esta exposição tão inovadora neste museu maravilhoso e tão significativo para todos nós, brasileiros. Escreva aqui embaixo qual é a mulher negra, preferencialmente atriz, já que estamos a falar de atrizes, que você gostaria de ver numa exposição no MASP, o Museu de Arte de São Paulo, ou no MAM, o Museu de Arte Moderna de São Paulo. 

Aqui vão as minhas indicações e palavras finais: chega de rosnar e depois dar a patinha.
P.s.: se você não conhece nenhuma atriz negra brasileira ou não que poderia ser homenageada, compre e leia, ou apenas consulte Mulheres Negras do Brasil, de Érico Vital Brazil e Schuma Schumaher, da Editora Senac, publicado em 2007.

Josephine Baker (1906 - 1975), a primeira grande diva negra dos espetáculos e cinema. Nascida nos Estados Unidos, fez sua carreira de cantora e atriz na França. Dizem que ela usava suco de limão para clarear a pele. Independente disso, era muito corajosa e talentosa. Afinal de contas, a Beyoncé clareia a pela hoje em dia, mesmo com a consciência de sua negritude.
Dorothy Dandridge (1922 - 1965), primeira atriz negra norte-americana a ser indicada para o Oscar por sua atuação em "Carmem Jones", musical de 1959. A linda Halle Berry a interpretou em filme que leva seu nome. Se não viu, veja. 
Ruth de Souza, uma das fundadoras do Teatro Experimental do Negro, junto com Léa Garcia e Abdias do Nascimento  (1914 - 2011). Uma das atrizes mais importantes do nosso país tendo realizado muitas novelas, filmes e peças teatrais. Seria interessante uma exposição mega para homenagear esta grande atriz ainda em vida.
Sempre achei que a minha mãe se parece muito com a Chica Xavier. Pena que só a vemos em novelas de época, ainda que ela tenha feito muito cinema também. Agora ela simplesmente desapareceu das telas da televisão.
Léa Garcia, a encontrei no Rio de Janeiro em maio, linda e elegante. Outra fundadora do Teatro Experimental do Negro.
Dhu Moraes, que atua, canta e dança, ela era do grupos "As Frenéticas" que eu adorava. Ainda atua em novelas e esta nesta novela das sete daquela emissora que gostava de reiterar, de tempos em tempos, o lugar dos negros nesta sociedade.
Maria Dealves, linda, sensual e excelente atriz. Também sumida das telas.
A linda e talentosa Zezé Motta, referência de uma geração de atrizes que viu que ser negra do cabelo crespo e atriz ainda é possível. Xica da Silva marcou a sua carreira. Ela ainda por cima é cantora. Salve, Zezé!
A ex-mulata do Sargentelli (1924 - 2002), Solange Couto, exuberante e muito boa atriz que marcou seu retorno às novelas com a personagem Dona Jura: "não é brinquedo, não!".

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Dreads: os meus são lindos, perfumados e limpinhos

Olha, leitores do blog, se é que existem os que o façam com esta assiduidade, eu estive ausente e não publiquei ou pouco publiquei em maio porque foi um mês de trabalho bem intenso. Tive muitas coisas para fazer na Cubo Preto (lembram do primeiro post do ano?). Pra quem quiser conhecer veja a página no facebook, ela dá acesso ao blog também: 


Não quis fechar este mês sem nada, quero publicar ao menos uma vez por mês ou mais.
Vou escrever sobre uma pergunta que vem me atormentando, coisa mais desagradável. Falaremos de estética, dentro dos padrões que as pessoas pensam que se refere à estética: visual de corpo, rosto e cabelos. Não é só isso, para esclarecer, estética tem a ver com forma, o estudo do belo e da arte, é uma área da filosofia, grosso modo.
Este texto fala sobre dreads, dreadlocks. Quando é necessário ser mais didática, nada melhor do que iniciar um texto com definições oficiais e formais que constam em dicionários e outros meios de conhecimento e informação. Aqui vai uma que encontrei dentre tantas outras que não valiam a pena acrescentar aqui:


1. O Dicionário Informal, ao qual já recorri muitas vezes, pasmem (!), dentre outras explicações mais adequadas, dá a seguinte explicação para dreads: maconha, crack, cabelos... http://www.dicionarioinformal.com.br/sinonimos/dread/

Enfim, as associações feitas entre esta forma de usar os cabelos e tudo que é considerado feio ou imoral são muitas. Mas demos uma breve passada nos usos dos dreadlocks por algumas pessoas, segmentos e povos.

Os "sadhus", ou homens santos indianos que devotam as suas vidas à iluminação espiritual, por exemplo, usam dreadlocks. São mais ou menos uns 4 milhões de endredados na Índia. E assim, como os rastas, sobre os quais falaremos adiante, associam os cabelos arrumados desta forma ao hábito sagrado de fumar ganja (vulgo maconha).
No filme norte-americano "Braveheart" ou "Coração Valente", de 1995, dirigido e atuado por Mel Gibson, dentre outros atores, os escoceses que buscavam  sua independência do julgo britânico, também usavam dreadlocks entre as madeixas soltas. Podemos dizer que à maneira como os hermanos usam hoje. Sabe aquele dreadzinho solto que os argentinos sempre trazem nas cabeças?  Pois é...
Bob Marley (1945 - 1981), saudoso cantor do amor e do reggae, era seguidor da filosofia Ras Tafari ou rastáfari que está conectada à idéia de repatriação da população negra-africana dispersada pela mundo. Talvez tenha sido a figura pública deste cantor que tenha propagado esta forma de usar os cabelos crespos de uma forma mais abrangente. Diz a lenda que na ocasião do falecimento do cantor, vários pequenos animais foram encontrados dentre os seus dreads. Entretanto, não há como saber o que é verdade e mentira quando se trata de um mito que usava seus cabelos de uma forma que está envolta em preconceitos.

Como para os seguidos do Ras Tafari, os rastas, a ganja  é um instrumento de iluminação, de abertura dos canais da mente e serve também para ampliar a percepção da realidade, assim como ocorre com os sadus indianos, as pessoas que adotaram os dreadlocks como estilo e não por conta da adoção da religião são, comumente, identificadas como adeptas do uso da erva. Se trata aqui de um estereótipo que, por vezes, pode ser condizente com a realidade do adepto do penteado, outras não... Quantas pessoas que usam dreads já não foram abordadas por outras pessoas que desejavam uma seda ou uma ponta? O que quer dizer que, para o senso comum, os dreads estão automaticamente relacionados aos uso da erva e à filosofia rastáfari, sobre a qual muitos possuem muitas dúvidas. 
Há muitas explicações para o uso dos dreads junto aos rastas, a mais íntegra delas diz que a justificativa é a de que os humanos sejam como a natureza os preparou, ou seja, mantenha seus cabelos naturais. O que quer dizer que por ser um penteado feito, em geral, por pessoas que possuem seus cabelos naturalmente crespos, se não pentearmos eles se tornarão dreads, e é fato. Não há necessidade de nenhuma cera de mel de abelha, seria um penteado que "Deus" nos deu. Entretanto, uma "manutenção" vez ou outra traz aos mesmos um aspecto menos agressivo aos olhos de nossa sociedade repleta de padrões estéticos engessantes e uniformizantes. 

Para saber mais sobre a filosofia Ras Tafari, acesse:



Faz algum tempo que gostaria de ter feito dreads em meus cabelos, sempre considerei um jeito muito bonito e autêntico de arrumar os cabelos, mas assim como foi um passo muito difícil usar meus cabelos crespos e soltos em "black" após anos de alisamento a partir da chapinha (é, aquela que se coloca no fogão), e depois com cabelos traçados e relaxados, percebi que além de um desafio muito grande ao enfrentar as pessoas nas ruas, seria a minha libertação.
A libertação no sentido de deixar de tentar parecer o que eu não sou, de tentar corresponder a uma idéia de mulher feminina a partir do modelo caucasiano-ocidental-europeu, ou o mais próximo disso. Como escrevi no texto sobre os contos de fadas meses atrás, crescemos, especialmente nós mulheres, tentando nos parecer com o impossível. O que quero dizer é que por melhor que fique o alisado dos meus cabelos, eles sempre serão crespos. Já coloquei megahair também por um curto período de tempo e este artifício se mostrou a melhor maneira de acabar com meus cabelos naturais que ficaram quebradiços e frágeis. Foi a melhor forma de maltratar a minha natureza e era como se eu dizesse que realmente odiava meus cabelos. Na verdade, não havia encontrado a melhor forma de aceitá-lo como ele é e o black foi um excelente e importante passo neste sentido. 
Numa consulta à minha psicanalista, desabei e falei sobre este medo de endredar os cabelos e ser hostilizada, mas, principalmente, de não encontrar empregos, trabalhos que me aceitassem desta forma. Ela me respondeu que um lugar que não me contratasse por conta dos meus cabelos, não era de fato, um lugar onde eu me sentiria bem trabalhando seja lá com que cabelo fosse. Algo assim. Pensei muito e é verdade, ninguém precisa suportar ninguém, muito menos a imagem de alguém. porém, é engraçado como a liberdade de ser do outro pode agredir alguém, pode ferir, incomodar... Free, cada um na sua, lembra?
Endredei o black que eu tinha e coloquei uma extensão de cabelos endredados naturais. Fiquei muito, muito feliz. Minha cabeleireira, Kelly Cristina (do Glamour "Fashion Hair"), disse que nasci para usar dreads, mesmo que ela tenha perdido uma de suas clientes mais assíduas, já que agora vou de três em três meses dar uma ajeitada nos fios que escapam aos rolinhos de dread. Ela fica na Galeria do Reggae, ao lado da Galeria do Rock, para quem quiser ir, ela é muiiito boa!
Hoje me sinto eu. Me considero bela com estes dreads, combinam mais comigo. Usar os cabelos como eles são, naturais, é um aprendizado para nós negros. Num país onde homem negro bom raspa a cabeleira quase careca e a mulherada tem que alisar, é uma atitude de afirmação e enfrentamento muito grandes usar os cabelos compridos e de modo natural, seja black, seja dread, seja o que for. Muita coragem de ser quem somos!

Como fiz as fotos em abril, não encontrei alguns dos nomes dos fotografados. Se um de vocês ler este texto, por favor, me passe seu nome. Aqui faltam Edson Felinto, Ronaldo PJ, Janaína Freitas e muitos outros, mandem fotos também. Eu posto!
Vejam alguns exemplos de endredados que encontrei pelos caminhos que andei. Peço desculpas aos fotografados porque fiquei de postar estas imagens faz quase dois meses, mas estão aí:

Vanessa Teixeira, do Quinteto Abanã. Agora ela raspou uma das laterais dos cabelos. Abaixo mais imagens da bela cantora lírica.
Vanessa com a lateral recém raspada.


Várias possibilidades de penteados.
Giovani Di Ganzá, do Quinteto Abanã.
A poeta Raquel Almeida, fundadora do Sarau Elo da Corrente.
Um mocinho amigo do percussionista Manoel Trindade e o próprio no melhor estilo Living Colour.
Cabelos limpos, lindos e com balanço da fotógrafa Mel Duarte.
Dreads perfumados.
Dread couple.
A MC Amanda Cristina, a Miscível.
Zinho Trindade, cantor, escritor e MC.

Dread é sensual.


O designer e DJ Ronaldo PJ, dos primeiros a aderir os dreads entre os meus amigos. 
O fotógrafo Ierê Ferreira.
O músico e historiador Marcos Felinto que usa dreads desde os 14 anos.


A produtora Thays Quadros que deixou os cabelos endredarem naturalmente e ninguém acredita quando ela fala. Estão lindos!!


Edson Felinto em versão noturna com dreads soltos e chapéu. Puro estilo...

E visitando Embu das Artes.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Culturas Africanas e Afro-Brasileiras em Sala de Aula - Editora Fino Traço

O desejo de realizar uma publicação que reunisse as interessantes, relevantes e necessárias pesquisas de graduação, mestrado e doutorado minha e de meus colegas pesquisadores me acompanha desde 2003, ano de em que entrou em vigor a LEI 10.639 que obriga as instituições de ensino a incluir no currículo escolar o ensino da história e da cultura da África e de seus descendentes no Brasil.

Alguns publicações de peso, muito referenciais para as minhas práticas, estiveram por pouco tempo no mercado devido a grande sede de educadores por saber mais sobre este assunto. Uma delas é da Editora Ática, da Prof. de História da África da USP, Marina de Mello e Souza, África e Brasil Africano, de 2006. Com muito cuidado e respeito pelos povos africanos e pelos afro-brasileiros, Marina de Mello e Souza vai conduzindo-nos pela saga dos grandes reinos africanos, pelo contato destas populações com o mundo islamizado, pelos processos de escravização já existentes antes mesmo da chegada dos portugueses ao continente, é claro que com diferenças entre um modo e outro de escravizar, enfim, um belo livro que muito informa. Entretanto, este maravilhoso livro (já esgotado, diga-se de passagem) e outros que surgiram não acenam para o caminho das pedras: como o educador pode transformar conhecimentos e informações brilhantes em aula, em currículo, planejamento?

Foi a partir deste questionamento que convidei amigos pesquisadores a desenvolverem artigos referentes as suas pesquisas, porém falando diretamente ao educador, tendo em mente o dia a dia estes profissionais essenciais a nossa sociedade que, muitas vezes, trabalham em mais de uma escola, possuem família, utilizam transportes públicos precários, não possuem nem tempo e, infelizmente, nem recursos para adquirir muitos livros.

Gentilmente, Alexandre Araujo Bispo, Milton Silva Santos, Vanessa Raquel Lambert, Marcos Vinicius Felinto dos Santos, Emerson Melo, André Augusto Santos, David Ribeiro, Joyce Maria Rodrigues, Dulcilei Conceição, Janaina Barros, Wagner Vianna e Marcelo De Salete concordaram com a ideia, especialmente, porque compartilhamos desta premissa de que conhecimento acadêmico deve chegar a sala de aula, aos alunos e aos docentes. Isso foi em 2010, precisamente em julho, enquanto eu viajava conhecendo os museus que sempre quis ver com meus olhos com minha amiga Patricia Moreira. Como escrevi no texto que abriu o blog em 2012, grosso modo, viagem faz a gente sonhar, mas é necessário sonhar e concretizar e eu gosto disso, ainda que com todas as críticas que eu possa receber.
Doze autores, doze textos para que o Erick Ramalho revisasse, sempre melhorando, sempre com alterações, conversas via email, ver as imagens autorizadas ou não e agora o livro está aqui. Pronto!! Artigos acompanhados de sugestões de atividades voltadas ao Ensino Fundamental. Claro que o educador criativo, cheio de ideias pode adaptar as atividades. São sugestões apenas.

Esperamos que este material realmente enriqueça as iniciativas voltadas a efetivação desta lei que vem para somar, para humanizar e não para complicar e distanciar como já ouvi "educadores" dizendo e reclamando. Afinal, não somos uma cultura caucasiana ocidental como por muito tempo se quis afirmar via muitos meios. Somos mistos, somos afro, somos indígenas, somos misturados e nossa cultura reflete esta nossa característica. 

Agradeço aos autores, a amiga e Prof. Dra. da UFMG Vanicleia Silva Santos, a amiga e Prof. Dra. da UNIFESP Ligia Ferreira, a toda equipe maravilhosa da Editora Fino Traço e especialmente a Betânia Figueiredo que aceitou esta publicação na coleção Formação Docente.

Capa do nosso livro publicado pela Editora mineira Fino Traço (Fino Trato, também, o tempo todo). A fotografia é da amiga Vanicleia Silva Santos que apresentou este livro aos seus alunos da UFMG ontem.
Gostaria de compartilhar o comentário de um dos autores, do grande amigo, pesquisador, curador e mestrando em Antropologia Social pela USP, Alexandre Araujo Bispo, feito via Facebook, hoje pela manhã:

Renata e a foto é muito impressionante não? Ficou ótimo, parabéns a nós, mas sobretudo a você que organizou os artigos, reuniu os autores, enfim fez a produção cultural do projeto. Agora é torcer para que o material possa ajudar no fomento e exercício dos direitos étnico-raciais. No Brasil sabemos o quanto há desigualdades e a democracia está muito longe de realizar direitos básicos. Basta olharmos para o descaso com a gestão da educação e da saúde, que como sabemos são pilares do exercício democrático. Espero que nosso livro auxilie os professores que estão dispostos a mudar abordagens, a rever seu modo de trabalhar em sala de aula. Afinal a tarefa de todo adulto, como lembra Hanah Arendt é educar os pequenos, ou os jovens que estão chegando aí....


Para informações sobre aquisição, favor contatar: atendimento@finotraco.com.br