segunda-feira, 28 de março de 2011

Arte em pequenos formatos e "Ela", de Larissa Glebova

Observando e tentando acompanhar a produção recente feita em Artes Visuais, por vezes, tive a impressão de que são os trabalhos impossíveis de serem carregados pelo próprio artistas são os que são valorizados pelo mercado. Incluindo aí aqueles que os artistas não conseguem viabilizar sozinhos, que necessitam de pedreiros, marceneiros, pintores, designers e todo um apoio técnico profissional para além de suas habilidades pessoais a fim de se criar a obra de arte.
Não é bem assim. Faltou pensar no que o mercado deseja exibir em deoerminados momentos. Há vários artistas interessados em linguagens menos privilegiadas pelo circuito, talvez por parecerem efêmeras, ou por darem a impressão de "retaguarda" das Artes Visuais, sendo uma delas o desenho. E como há gente desenhando. Aqui mesmo no blog postei alguns trabalhos meus em desenho e comentei rapidamente sobre este exercício que, para muitos artistas, restringe-se à infância, como se somente crianças precisassem desenhar. O fato é que são muitos os artistas desenhistas e, alguns deles, se utitizam de formatos pequenos e em papel.
Em entrevista recente com a artista Rosana Paulino, a mesma manifestou-se sobre esta invisibildade do desenho como forma de expressão dentro das exposições atuais. Conversamos sobre a exposição que estava em cartaz no SESC Pinheiros, "Realidades: Desenho Contemporâneo Brasileiro", de curadoria de Nazareno e a participação de 17 artistas. Desenho neste entendimento mais "strictu" só havia mesmo o de Nino Cais, trabalho bem interessante, somente de linhas, brincando com a relação entre objetos e figura humana. Os demais artistas perpassavam o desenho, porém não pude perceber a mesma densidade que vi em Nino. Foi uma excelente iniciativa de Nazareno a de exibir produções que partem de materiais mais simples e da linguagem que é a base de qualquer criação artística: a linha que forma e deforma.
Alguns salões de arte ainda dão mais espaço para a produção em menor escala do que as faroônicas que se tem visto pór aí pós-modernidade: Salão UNAMA de Pequenos Formatos, em sua 17. Edição e com inscrições abertas até 04/04/2011. Mais informações: http://www.unama.br/

Também pode-se destacar a exposição do artista Leonilson no Instituto Itaú Cultural, "Sob o peso dos meus amores", retrospectiva do artista dos formatos e temáticas intimistas, até 29 de maio.

Pinçando uma artista desenhista que fez sua escolha pelos pequenos formatos, observemos ela: Larissa Glebova. Há dois anos ou mais a artista vem trabalhando na série "Ela", feita cuidadosamente em seus cadernos de desenhos dando visualidade aos sabores doces e amargos que temperam a feminilidade dos anos 2011.

Segue abaixo um bereve texto de apresentação que redigi para este belo e intenso trabalho.

“Ela” (s): a linha que perscruta o ser


Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.
Clarice Lispector

            Feminina... Menina... Delicada... Suave... Grácil... Não, não se iluda ao observar os traços precisos e finos; as composições equilibradas; os sapatos, os vestidos e os penteados que nos remetem às figuras de bonecas e a um universo que se apresenta superficialmente lúdico ou diáfano. O mundo cor de rosa e repleto de flores e laços que comumente são associados a orbe das mulheres não é o mesmo no qual “Ela” vive: reflete, sente, pondera, interpreta, imagina, sofre, ama, aguarda...A partir da tradição do desenho como linguagem escolhida para desenvolver a série “Ela”, a artista Larissa Glebova, traz a luz a intimidade sentimental e dúbia que permeia a noção de feminilidade revelada aos homens por Sigmund Freud e, até hoje, envolta em estigmas e em incompreensões do vem a ser “mulher”.
As inquietações, reflexões, dúvidas e outras questões que são levantadas pelos desenhos a partir desta série podem se relacionar com as vidas de muitas mulheres, especialmente, com as daquelas que não se encaixam no modelo feminino elaborado, imposto e esperado do sexo “frágil” por nossa sociedade. “Ela” metaforiza o ser feminino no mundo pós-moderno lançando mão de recursos poéticos, sejam eles visuais ou verbais, de certo psicologismo, da “macunaimização” do ser que se cinde, se equilibra, se manipula, se entrega, se apaixona, se despedaça, se disfarça, se mutila, se alegra, se divide, e que, por meio destas ações e sensações, não procura nada mais do que seu lugar em um mundo em que não são todos (as) que possuem o seu espaço. “Ela” não sente contrações, não amamenta, não auxilia as crianças no dever de casa, não prepara a refeição da família ou faz massagens nos pés de seu marido após 40 horas de trabalho semanal. “Ela” dá visibilidade à outra possibilidade de ser mulher e experenciar esta condição.
Dialoga com os trabalhos voltados para a realidade de casamentos violentos abordados por Beth Moysés; com a crítica ao cruel padrão de beleza ditado pela moda e pela adoção do gosto estético europeu discutido por Nazareth Pacheco; com as mulheres de olhos e bocas cerzidas de Rosana Paulino. Visualidades aparentemente belas que podem ser lidas como críticas aos papéis que são reservados às mulheres, porém, o que “Ela” deseja, ou assim nos parece, além de ser, é não precisar dar sentido aos rótulos imputados por outros através destas linhas tênues, firmes e contínuas que delineam figurativamente estes desejos, não sendo “fofa”, não sendo cor de rosa.
Ela disponível

Ela máscara de gás

Ela órgão

Ela quebra-cabeça

Ela queria te alcançar

Ela afetos

Ela camuflagem

Ela entre

Ela mágica

Ela marionete





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