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sábado, 1 de setembro de 2012

Fragilidade:"a construção do desabar"

Estava aqui a pensar comigo sobre uma conversa que tive recentemente sobre o futuro, a minha vida e outras coisas que poderiam se tornar planos, e como cada um de nós possui uma visão diversa sobre tudo isso. Mesmo quando a gente acredita que existe um norte, um firmamento, uma certeza em relação às nossas escolhas, desejos, planejamentos, uma simples conversa mais sincera, mais profunda, sem máscaras, pode colocar tudo a perder. Melhor, pode te fazer repensar tudo isso. Tudo o que foi construído pode desabar. O meu interlocutor me disse:" planejamos e, de repente, o planejado não acontece e pode dar tudo errado, aí vem a frustração"... De fato, faz tempo que tenho pensado em tentar, sempre tentar para justamente não ter a desculpa do medo da frustração e ficar ainda mais frustrada porque poderia ter dado certo. O medo da frustração é uma grande covardia, não gosto desse medo de colocar o pé na água fria. Afinal de contas, se você chegou até tão perto do rio, entre, ora pois. Esse meu interlocutor, agora mudando tudo para metáforas, estava a falar sobre a "construção do desabar", ou seja, vamos planejando e construindo sem garantias, e se der errado, pode desabar. Uma colega de universidade, hoje artista famosa, Tatiana Blass, deu este título ao seu trabalho de conclusão de curso. Parece paradoxal, entretanto, faz sentido ao se pensar nas idéias deste meu interlocutor. Como disse o cantor Crioulo na reunião após o fechamento do Sarau do Binho (querido!): "somos frágeis". A fragilidade, antes da inteligência, deveria ser a premissa para ser humano. Ao mesmo tempo em que somos uma potência, mesmo um indivíduo sozinho pode ser uma, somos realmente delicados. Uma doença simples, uma picada de inseto, um alimento mal cuidado, um tombo, um sentimento como o ódio que vira amargura ou o amor que se transforma em sofrimento, uma crítica destrutiva, uma palavra mal colocada, tudo isso pode nos afetar profunda e mortalmente.
Depois dessa conversa, eu que me sentia tão no caminho que eu queria e com alguém que estava a fim de caminhar no mesmo passo, no mesmo ritmo, me senti novamente em um solo, um solo não ensaiado. Voltei a ser uma andarilha, não sem destino e não errante. Que seja um lindo solo, então... Uma dança contemporânea bem dançada.
Quantas vezes a arte não refletiu sobre esta nossa fragilidade, sobre esta humanidade que pode se esvair a qualquer momento? Pinceladas que se sobrepõem como que apagando momentos por meio de gestos; linhas finas sutis difíceis de se enxergar; coreografias quase impossíveis de se sustentar o movimento; cores de uma luminosidade e suavidade tão grandes que nos cegam o olhar...
Há obras que traduzem uma fragilidade de maneira única. Seguem aqui algumas, talvez metáforas para o desabar interior destes artistas.
Ah, e venho pensando que só dá pra confiar em si, cada confiando em si mesmo, nas suas crenças, nas suas angústias, nos seus desejos...

O fotógrafo Gustavo Lacerda desenvolveu esta série de retratos maravilhosos no qual pretendeu registrar a natureza frágil e delicada das pessoas albinas. Projeto premiadíssimo, ele diz que sempre se interessou pelo assunto. Entrar no site dele e ver todos os retratos é um exercício de aguçamento da sensibilidade e uma forma de revisar nossos conceitos sobre o belo.
http://www.gustavolacerda.com.br/


Trabalho da citada no texto, Tatiana Blass. Este pertence à série "Cão Cego", mas entrando no site da artista ´´possível conhecer muitos trabalhos onde a efemeridade, a inconstância e brevidade são atributos presentes. A considero das melhores artistas do mundo na atualidade, gosto muito desta poética.
http://www.tatianablass.com.br/

É possível afirmar que Tatiana Blass é herdeira de Mira Schendel (1919 - 1988), a artista suíça radicada no Brasil. Ela explorava com assiduidade folhas de papel com textura frágil, as possibilidade dos traços a partir da pressão exercida pela mão, o gestual e a sensação era a de algo por vir, por completar: signos, linhas, formas...Neste trabalho sem título de 1964 é a imprecisão deste quadrado sobre este branco que não é tão branco assim que demonstram certa precariedade...

Sidney Amaral é dos artistas que mais admiro, pelo domínio técnico e pelas ideias fantásticas. Neste série de autorretratos ele se representa em muitas situações inusitadas. Aqui, ele desistiu de lutar, como que vencido pela pureza do vestido de noiva. O que será que ele quis dizer? Fico muito curiosa em relação a este trabalho. 
Aqui dois trabalhos do inglês Andy Goldsworth, um dos grandes nomes da Land Art, esta arte feita na natureza e com coisas que se referem à ela. Gosto demais da poesia e da fragilidade que existem em suas obras.

Para finalizar este post, segue aqui este lindo trabalho de Brígida Baltar "A coleta da neblina", performance na qual ele tenta colher essa atmosfera feérica. 
Trabalho da artista Larissa Glebova, cadeiras em miniatura com almofadas  contendo desenhos bordados em fios de ouro. Cada uma das almofadas representa um dos nossos órgãos vitais. Ela tem optado por linhas delicadas, brancos profundos e sentimentos escancarados. Num primeiro olhar muito delicados e sutis, num segundo olhar sentimentos aflorados, acalorados, perturbados. 

sábado, 25 de agosto de 2012

Marilyn Monroe: a grande homenageada do mês!


Recebi a notícia da nova exposição do Museu Afro Brasil, que abriu no dia 07 de agosto, de minha amiga dançarina e antropóloga Luciane Ramos com muito espanto e decepção: "A sedução de Marilyn Monroe".
Pessoalmente não considero Marilyn (1926 - 1962) a grande atriz que a mídia deseja fixar em nossas mentes. E não acho que sua beleza seja fascinante, hipnotizante, única, dentre outros adjetivos um tanto hiperbólicos que são utilizados quando muitos se referem à sua figura.
Assisti alguns filmes nos quais ela contracena, como o delicioso "Quanto mais quente melhor" (1959), de Billy Wilder. Muito bom, muito engraçado e com atores maravilhosos no elenco como o Jack Lemon (1925 - 2001), que minha geração conheceu bem idoso e Tony Curtis (1925 - 2010). Coisa de cinéfilo. Ela estava muito bem no papel, neste filme engraçado que é uma comédia deliciosa do tipo que não vemos mais hoje em dia, com Malicia, entretanto, sem peitões balançando (acho que porque tinham aqueles sutiãs armaduras).
Certamente, o fato da loira ter falecido na flor da idade, aos 36 anos, e de forma trágica e inexplicável, como ocorreu com outros ícones da cultura pop como Jimi Hendrix (1942 – 1970), Janis Joplin (1943 - 1970), Elis Regina (1945 – 1982), dentre outros que faleceram nos últimos anos, fez com que sua perda se tornasse muito impactante, tendo em vista que era uma atriz famosa, com muitos fãs  e que ainda estava em atividade. Gostamos destas histórias trágicas. Se não gostamos, ao menos as alimentamos comprando livros, lendo notícias etc. Ou seja, fortalecendo e propagando o mito.
O Museu Afro Brasil, como diz o curador Sr. Emanoel Araujo, é, antes de tudo, um museu de arte. Só por esta definição ouvida durante os muitos anos nos quais trabalhei na instituição, já é possível notar a incoerência da exposição proposta que trata do fortalecimento da imagem de Marilyn Monroe com base na festejada sensualidade da atriz. Não são seus dotes dramáticos, portanto, artísticos, o foco deste acontecimento, mas sim o enaltecimento de sua figura como a da mulher fatal e irresistível. Não são os papéis interpretados por ela que são citados e apresentados aos visitantes, mais sim seus atributos físicos interpretados por vários artistas por meio de suas obras de arte.

Poderia aprofundar este texto apontando outros pontos desta incoerência, mas pensar neste museu como espaço de arte que homenageia uma mulher branca e loira por sua sensualidade e erotismo, já é o suficiente para percebemos como esta exposição está absolutamente deslocada.
Para além disso, é preciso lembrar que o Museu Afro Brasil foi aberto em 2004 sendo considerado uma ação afirmativa. Segundo documento elaborado por funcionários da instituição, o Museu Afro Brasil tem como missão e visão:

- Promover o reconhecimento, valorização e preservação do patrimônio cultural brasileiro, africano e afro-brasileiro e sua presença na cultura nacional.
- Ser instituição de referência em ações museais, unindo História, Memória, Arte e Contemporaneidade voltadas, prioritariamente, à cultura brasileira, africana e afro-brasileira.

Deste modo, me parece absolutamente fora de contexto a realização desta exposição em homenagem à diva platinada.
Fico aqui imaginando os professores que se preparam durante semanas ou meses, para conseguir levar seus alunos ao Museu Afro Brasil e, assim, ampliar os repertórios dos mesmos em relação à Lei 10.639/03; que com muita dificuldade conseguiram transporte, autorizações, por vezes, alimentação, para uma manhã ou tarde na qual seus estudantes se defrontariam com as imagens e biografias de personalidades basilares da história dos afrodescendentes em nosso país, para além dos outros aprendizados. 
Penso naqueles educadores que com muito custo, conseguiram demonstrar aos seus alunos que à despeito do que prega as várias mídias que exaltam constantemente o padrão branco como o ideal e único, que os negros e mestiços são diferentes deste padrão, e que reside nesta diferença as qualidades estéticas deste segmento étnico. Que sim, a pele escura, os narizes largos, os lábios maiores, os cabelos crespos, que todas estas características às quais chamamos de fenótipo, são belas se não tivermos como norteadoras as características do segmento branco.
Vislumbro estas crianças e adolescentes ansiosos por se depararem com as culturas africanas e afro-brasileiras: o que encontraremos neste Museu Afro Brasil? E, ao adentrar no espaço repleto de mistérios, porque os museus ainda representam um enigma para os que não o frequentam habitualmente, vêem várias obras de arte, representando Marilyn Monroe e, especialmente, preparadas para esta homenagem.

O que ocorre? Faltam mulheres negras que possam ser homenageadas e reverenciadas? Por que esta exposição não está em espaços mais adequados como o Museu da Imagem e do Som, o MIS?
Por que não Lélia Gonzalez (1935 – 1994), a primeira intelectual negra de nosso país? Ou ainda, Sueli Carneiro, filósofa e criadora da ONG Geledés? Ou Raquel Trindade, pesquisadora, pintora e dançarina, herdeira do Legado do poeta Solano Trindade? Por que essas dentre tantas outras figuras femininas negras não são temas de exposições na instituição? 
Por que ressaltar as qualidades sedutoras e Marilyn Monroe, colocando novamente as mulheres, de modo geral, no papel de objetos do desejo? 
Tenho pensando muito a que se presta esta exposição. Que o curador da instituição é um homem visionário, ousado, desafiador deste sistema que estagna isto é irrefutável. Entretanto, o que pretende com a polêmica exposição? O que ganhamos nós cidadãos, negros e brancos, com esta mostra em museu que pretende salvaguardar, propagar e visibilizar a história dos afrodescendentes em nosso país. História esta tão omitida, forjada e eclipsada...

E daí que o tatatatatatatavó de Marilyn Monroe fosse negro? Essa foi uma das explicações que ouvi por aí. Tsc, tsc, tsc, avançamos muito com a criação deste museu, sem dúvida que muitas exposições exemplares e fundamentais já passaram por este espaço, como Brasileiro, Brasileiros, O Benin está vivo ainda lá, entre outras, mas esta se mostra como um retrocesso: três passos para frente, dois para trás.

A filósofa Sueli Carneiro, em alguns de seus textos como "Enegrecendo Feminismo" e "Mulheres em Ação", realiza profundas críticas à exacerbada exposição de loiras em nossa sociedade. Acredito que suas palavras servem para complexizar a exposição citada, demonstrando que é uma homenagem um tanto inadequada se pensarmos no contexto brasileiro:

Nesse sentido, racismo também superlativa os gêneros por meio de privilégios que advêm da exploração e exclusão dos gêneros subalternos. Institui para os gêneros hegemônicos padrões que seriam inalcançáveis numa competição igualitária. A recorrência abusiva, a inflação de mulheres loiras, ou da “loirização”, na televisão brasileira, é um exemplo dessa disparidade.

E mais...

Em relação ao tópico da violência, as mulheres negras realçaram uma outra dimensão do problema. Tem-se reiterado que, para além da problemática da violência doméstica e sexual que atingem as mulheres de todos os grupos raciais e classes sociais, há uma forma específica de violência que constrange o direito à imagem ou a uma representação positiva, limita as possibilidades de encontro no mercado afetivo, inibe ou compromete o pleno exercício da sexualidade pelo peso dos estigmas seculares, cerceia o acesso ao trabalho, arrefece as aspirações e rebaixa a auto-estima.
Esses são os efeitos da hegemonia da “branquitude” no imaginário social e nas relações sociais concretas. É uma violência invisível que contrai saldos negativos para a subjetividade das mulheres negras, resvalando na afetividade e sexualidade destas. Tal dimensão da violência racial e as particularidades que ela assume em relação às mulheres dos grupos raciais não-hegemônicos vem despertando análises cuidadosas e recriação de práticas que se mostram capazes de construir outros referenciais.

Segundo Antonia Quintão, historiadora citada por Carneiro:

...a exclusão simbólica, a não-representação ou distorções da imagem da muher negra nos meios de comunicação são formas de violência tão dolorosas, cruéis e prejudiciais que poderiam ser tratadas no âmbito dos direitos humanos.


Nas palavras do curador:

A sedução de Marilyn Monroe

O Museu é um espaço de reflexão cultural, ele também exemplifica o modus operandi de uma sociedade, o significado social de um povo e sua visão estética. Esses são fatores pelo quais um povo sedimenta seus princípios civilizatórios.

A definição tipológica de um museu não o impossibilita nem pode ser entrave para as diversas discussões que essa própria sociedade repre
senta e apresenta.
Os museus, portanto, são espaços abertos como palco onde a cultura material e imaterial de um povo possa estar viva e latente, revivendo fatos e acontecimentos recentes ou passados da nossa memória e da nossa história.
A globalização nos absolveu do complexo de culpa, de poder olhar o mundo como coisa nossa, sendo assim a exposição sobre os cinquenta anos da morte da atriz norte-americana Marilyn Monroe e o drama de sua vida pertencem a todos como grande fenômeno pop do inconsciente coletivo nos quatro cantos do mundo.
Isso responde a todos aqueles que acham estranho essa exposição do Museu Afro Brasil.
Não quero pensar numa ponta de racismo em limitar os conteúdos das exposições aqui realizadas, elas são elucidativas para enriquecer as expressões de muitos povos como africanos, europeus, americanos, brasileiros, enfim, interessados na memória, na vida, na arte, na história em volta de nós.

Emanoel Araujo

Diretor Curador

Exposição "A Sedução de Marilyn Monroe" - Museu Afro Brasil

Horário de visitação: Ter/Dom - 10h às 17h
Entrada Gratuita.


Bem, não podemos ser escravizados por um "modus operandi" que tem por princípios implícitos justamente nos excluir e omitir a nossa importância para a história do Brasil e do mundo.
Você, que dedicou alguns minutos de seu dia para ler este texto que, talvez tenha agregado alguma reflexão ou informação nova, ou ainda, te fez pensar no quanto "eu" sou racista e reacionária por não compreender esta exposição tão inovadora neste museu maravilhoso e tão significativo para todos nós, brasileiros. Escreva aqui embaixo qual é a mulher negra, preferencialmente atriz, já que estamos a falar de atrizes, que você gostaria de ver numa exposição no MASP, o Museu de Arte de São Paulo, ou no MAM, o Museu de Arte Moderna de São Paulo. 

Aqui vão as minhas indicações e palavras finais: chega de rosnar e depois dar a patinha.
P.s.: se você não conhece nenhuma atriz negra brasileira ou não que poderia ser homenageada, compre e leia, ou apenas consulte Mulheres Negras do Brasil, de Érico Vital Brazil e Schuma Schumaher, da Editora Senac, publicado em 2007.

Josephine Baker (1906 - 1975), a primeira grande diva negra dos espetáculos e cinema. Nascida nos Estados Unidos, fez sua carreira de cantora e atriz na França. Dizem que ela usava suco de limão para clarear a pele. Independente disso, era muito corajosa e talentosa. Afinal de contas, a Beyoncé clareia a pela hoje em dia, mesmo com a consciência de sua negritude.
Dorothy Dandridge (1922 - 1965), primeira atriz negra norte-americana a ser indicada para o Oscar por sua atuação em "Carmem Jones", musical de 1959. A linda Halle Berry a interpretou em filme que leva seu nome. Se não viu, veja. 
Ruth de Souza, uma das fundadoras do Teatro Experimental do Negro, junto com Léa Garcia e Abdias do Nascimento  (1914 - 2011). Uma das atrizes mais importantes do nosso país tendo realizado muitas novelas, filmes e peças teatrais. Seria interessante uma exposição mega para homenagear esta grande atriz ainda em vida.
Sempre achei que a minha mãe se parece muito com a Chica Xavier. Pena que só a vemos em novelas de época, ainda que ela tenha feito muito cinema também. Agora ela simplesmente desapareceu das telas da televisão.
Léa Garcia, a encontrei no Rio de Janeiro em maio, linda e elegante. Outra fundadora do Teatro Experimental do Negro.
Dhu Moraes, que atua, canta e dança, ela era do grupos "As Frenéticas" que eu adorava. Ainda atua em novelas e esta nesta novela das sete daquela emissora que gostava de reiterar, de tempos em tempos, o lugar dos negros nesta sociedade.
Maria Dealves, linda, sensual e excelente atriz. Também sumida das telas.
A linda e talentosa Zezé Motta, referência de uma geração de atrizes que viu que ser negra do cabelo crespo e atriz ainda é possível. Xica da Silva marcou a sua carreira. Ela ainda por cima é cantora. Salve, Zezé!
A ex-mulata do Sargentelli (1924 - 2002), Solange Couto, exuberante e muito boa atriz que marcou seu retorno às novelas com a personagem Dona Jura: "não é brinquedo, não!".

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Dreads: os meus são lindos, perfumados e limpinhos

Olha, leitores do blog, se é que existem os que o façam com esta assiduidade, eu estive ausente e não publiquei ou pouco publiquei em maio porque foi um mês de trabalho bem intenso. Tive muitas coisas para fazer na Cubo Preto (lembram do primeiro post do ano?). Pra quem quiser conhecer veja a página no facebook, ela dá acesso ao blog também: 


Não quis fechar este mês sem nada, quero publicar ao menos uma vez por mês ou mais.
Vou escrever sobre uma pergunta que vem me atormentando, coisa mais desagradável. Falaremos de estética, dentro dos padrões que as pessoas pensam que se refere à estética: visual de corpo, rosto e cabelos. Não é só isso, para esclarecer, estética tem a ver com forma, o estudo do belo e da arte, é uma área da filosofia, grosso modo.
Este texto fala sobre dreads, dreadlocks. Quando é necessário ser mais didática, nada melhor do que iniciar um texto com definições oficiais e formais que constam em dicionários e outros meios de conhecimento e informação. Aqui vai uma que encontrei dentre tantas outras que não valiam a pena acrescentar aqui:


1. O Dicionário Informal, ao qual já recorri muitas vezes, pasmem (!), dentre outras explicações mais adequadas, dá a seguinte explicação para dreads: maconha, crack, cabelos... http://www.dicionarioinformal.com.br/sinonimos/dread/

Enfim, as associações feitas entre esta forma de usar os cabelos e tudo que é considerado feio ou imoral são muitas. Mas demos uma breve passada nos usos dos dreadlocks por algumas pessoas, segmentos e povos.

Os "sadhus", ou homens santos indianos que devotam as suas vidas à iluminação espiritual, por exemplo, usam dreadlocks. São mais ou menos uns 4 milhões de endredados na Índia. E assim, como os rastas, sobre os quais falaremos adiante, associam os cabelos arrumados desta forma ao hábito sagrado de fumar ganja (vulgo maconha).
No filme norte-americano "Braveheart" ou "Coração Valente", de 1995, dirigido e atuado por Mel Gibson, dentre outros atores, os escoceses que buscavam  sua independência do julgo britânico, também usavam dreadlocks entre as madeixas soltas. Podemos dizer que à maneira como os hermanos usam hoje. Sabe aquele dreadzinho solto que os argentinos sempre trazem nas cabeças?  Pois é...
Bob Marley (1945 - 1981), saudoso cantor do amor e do reggae, era seguidor da filosofia Ras Tafari ou rastáfari que está conectada à idéia de repatriação da população negra-africana dispersada pela mundo. Talvez tenha sido a figura pública deste cantor que tenha propagado esta forma de usar os cabelos crespos de uma forma mais abrangente. Diz a lenda que na ocasião do falecimento do cantor, vários pequenos animais foram encontrados dentre os seus dreads. Entretanto, não há como saber o que é verdade e mentira quando se trata de um mito que usava seus cabelos de uma forma que está envolta em preconceitos.

Como para os seguidos do Ras Tafari, os rastas, a ganja  é um instrumento de iluminação, de abertura dos canais da mente e serve também para ampliar a percepção da realidade, assim como ocorre com os sadus indianos, as pessoas que adotaram os dreadlocks como estilo e não por conta da adoção da religião são, comumente, identificadas como adeptas do uso da erva. Se trata aqui de um estereótipo que, por vezes, pode ser condizente com a realidade do adepto do penteado, outras não... Quantas pessoas que usam dreads já não foram abordadas por outras pessoas que desejavam uma seda ou uma ponta? O que quer dizer que, para o senso comum, os dreads estão automaticamente relacionados aos uso da erva e à filosofia rastáfari, sobre a qual muitos possuem muitas dúvidas. 
Há muitas explicações para o uso dos dreads junto aos rastas, a mais íntegra delas diz que a justificativa é a de que os humanos sejam como a natureza os preparou, ou seja, mantenha seus cabelos naturais. O que quer dizer que por ser um penteado feito, em geral, por pessoas que possuem seus cabelos naturalmente crespos, se não pentearmos eles se tornarão dreads, e é fato. Não há necessidade de nenhuma cera de mel de abelha, seria um penteado que "Deus" nos deu. Entretanto, uma "manutenção" vez ou outra traz aos mesmos um aspecto menos agressivo aos olhos de nossa sociedade repleta de padrões estéticos engessantes e uniformizantes. 

Para saber mais sobre a filosofia Ras Tafari, acesse:



Faz algum tempo que gostaria de ter feito dreads em meus cabelos, sempre considerei um jeito muito bonito e autêntico de arrumar os cabelos, mas assim como foi um passo muito difícil usar meus cabelos crespos e soltos em "black" após anos de alisamento a partir da chapinha (é, aquela que se coloca no fogão), e depois com cabelos traçados e relaxados, percebi que além de um desafio muito grande ao enfrentar as pessoas nas ruas, seria a minha libertação.
A libertação no sentido de deixar de tentar parecer o que eu não sou, de tentar corresponder a uma idéia de mulher feminina a partir do modelo caucasiano-ocidental-europeu, ou o mais próximo disso. Como escrevi no texto sobre os contos de fadas meses atrás, crescemos, especialmente nós mulheres, tentando nos parecer com o impossível. O que quero dizer é que por melhor que fique o alisado dos meus cabelos, eles sempre serão crespos. Já coloquei megahair também por um curto período de tempo e este artifício se mostrou a melhor maneira de acabar com meus cabelos naturais que ficaram quebradiços e frágeis. Foi a melhor forma de maltratar a minha natureza e era como se eu dizesse que realmente odiava meus cabelos. Na verdade, não havia encontrado a melhor forma de aceitá-lo como ele é e o black foi um excelente e importante passo neste sentido. 
Numa consulta à minha psicanalista, desabei e falei sobre este medo de endredar os cabelos e ser hostilizada, mas, principalmente, de não encontrar empregos, trabalhos que me aceitassem desta forma. Ela me respondeu que um lugar que não me contratasse por conta dos meus cabelos, não era de fato, um lugar onde eu me sentiria bem trabalhando seja lá com que cabelo fosse. Algo assim. Pensei muito e é verdade, ninguém precisa suportar ninguém, muito menos a imagem de alguém. porém, é engraçado como a liberdade de ser do outro pode agredir alguém, pode ferir, incomodar... Free, cada um na sua, lembra?
Endredei o black que eu tinha e coloquei uma extensão de cabelos endredados naturais. Fiquei muito, muito feliz. Minha cabeleireira, Kelly Cristina (do Glamour "Fashion Hair"), disse que nasci para usar dreads, mesmo que ela tenha perdido uma de suas clientes mais assíduas, já que agora vou de três em três meses dar uma ajeitada nos fios que escapam aos rolinhos de dread. Ela fica na Galeria do Reggae, ao lado da Galeria do Rock, para quem quiser ir, ela é muiiito boa!
Hoje me sinto eu. Me considero bela com estes dreads, combinam mais comigo. Usar os cabelos como eles são, naturais, é um aprendizado para nós negros. Num país onde homem negro bom raspa a cabeleira quase careca e a mulherada tem que alisar, é uma atitude de afirmação e enfrentamento muito grandes usar os cabelos compridos e de modo natural, seja black, seja dread, seja o que for. Muita coragem de ser quem somos!

Como fiz as fotos em abril, não encontrei alguns dos nomes dos fotografados. Se um de vocês ler este texto, por favor, me passe seu nome. Aqui faltam Edson Felinto, Ronaldo PJ, Janaína Freitas e muitos outros, mandem fotos também. Eu posto!
Vejam alguns exemplos de endredados que encontrei pelos caminhos que andei. Peço desculpas aos fotografados porque fiquei de postar estas imagens faz quase dois meses, mas estão aí:

Vanessa Teixeira, do Quinteto Abanã. Agora ela raspou uma das laterais dos cabelos. Abaixo mais imagens da bela cantora lírica.
Vanessa com a lateral recém raspada.


Várias possibilidades de penteados.
Giovani Di Ganzá, do Quinteto Abanã.
A poeta Raquel Almeida, fundadora do Sarau Elo da Corrente.
Um mocinho amigo do percussionista Manoel Trindade e o próprio no melhor estilo Living Colour.
Cabelos limpos, lindos e com balanço da fotógrafa Mel Duarte.
Dreads perfumados.
Dread couple.
A MC Amanda Cristina, a Miscível.
Zinho Trindade, cantor, escritor e MC.

Dread é sensual.


O designer e DJ Ronaldo PJ, dos primeiros a aderir os dreads entre os meus amigos. 
O fotógrafo Ierê Ferreira.
O músico e historiador Marcos Felinto que usa dreads desde os 14 anos.


A produtora Thays Quadros que deixou os cabelos endredarem naturalmente e ninguém acredita quando ela fala. Estão lindos!!


Edson Felinto em versão noturna com dreads soltos e chapéu. Puro estilo...

E visitando Embu das Artes.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Culturas Africanas e Afro-Brasileiras em Sala de Aula - Editora Fino Traço

O desejo de realizar uma publicação que reunisse as interessantes, relevantes e necessárias pesquisas de graduação, mestrado e doutorado minha e de meus colegas pesquisadores me acompanha desde 2003, ano de em que entrou em vigor a LEI 10.639 que obriga as instituições de ensino a incluir no currículo escolar o ensino da história e da cultura da África e de seus descendentes no Brasil.

Alguns publicações de peso, muito referenciais para as minhas práticas, estiveram por pouco tempo no mercado devido a grande sede de educadores por saber mais sobre este assunto. Uma delas é da Editora Ática, da Prof. de História da África da USP, Marina de Mello e Souza, África e Brasil Africano, de 2006. Com muito cuidado e respeito pelos povos africanos e pelos afro-brasileiros, Marina de Mello e Souza vai conduzindo-nos pela saga dos grandes reinos africanos, pelo contato destas populações com o mundo islamizado, pelos processos de escravização já existentes antes mesmo da chegada dos portugueses ao continente, é claro que com diferenças entre um modo e outro de escravizar, enfim, um belo livro que muito informa. Entretanto, este maravilhoso livro (já esgotado, diga-se de passagem) e outros que surgiram não acenam para o caminho das pedras: como o educador pode transformar conhecimentos e informações brilhantes em aula, em currículo, planejamento?

Foi a partir deste questionamento que convidei amigos pesquisadores a desenvolverem artigos referentes as suas pesquisas, porém falando diretamente ao educador, tendo em mente o dia a dia estes profissionais essenciais a nossa sociedade que, muitas vezes, trabalham em mais de uma escola, possuem família, utilizam transportes públicos precários, não possuem nem tempo e, infelizmente, nem recursos para adquirir muitos livros.

Gentilmente, Alexandre Araujo Bispo, Milton Silva Santos, Vanessa Raquel Lambert, Marcos Vinicius Felinto dos Santos, Emerson Melo, André Augusto Santos, David Ribeiro, Joyce Maria Rodrigues, Dulcilei Conceição, Janaina Barros, Wagner Vianna e Marcelo De Salete concordaram com a ideia, especialmente, porque compartilhamos desta premissa de que conhecimento acadêmico deve chegar a sala de aula, aos alunos e aos docentes. Isso foi em 2010, precisamente em julho, enquanto eu viajava conhecendo os museus que sempre quis ver com meus olhos com minha amiga Patricia Moreira. Como escrevi no texto que abriu o blog em 2012, grosso modo, viagem faz a gente sonhar, mas é necessário sonhar e concretizar e eu gosto disso, ainda que com todas as críticas que eu possa receber.
Doze autores, doze textos para que o Erick Ramalho revisasse, sempre melhorando, sempre com alterações, conversas via email, ver as imagens autorizadas ou não e agora o livro está aqui. Pronto!! Artigos acompanhados de sugestões de atividades voltadas ao Ensino Fundamental. Claro que o educador criativo, cheio de ideias pode adaptar as atividades. São sugestões apenas.

Esperamos que este material realmente enriqueça as iniciativas voltadas a efetivação desta lei que vem para somar, para humanizar e não para complicar e distanciar como já ouvi "educadores" dizendo e reclamando. Afinal, não somos uma cultura caucasiana ocidental como por muito tempo se quis afirmar via muitos meios. Somos mistos, somos afro, somos indígenas, somos misturados e nossa cultura reflete esta nossa característica. 

Agradeço aos autores, a amiga e Prof. Dra. da UFMG Vanicleia Silva Santos, a amiga e Prof. Dra. da UNIFESP Ligia Ferreira, a toda equipe maravilhosa da Editora Fino Traço e especialmente a Betânia Figueiredo que aceitou esta publicação na coleção Formação Docente.

Capa do nosso livro publicado pela Editora mineira Fino Traço (Fino Trato, também, o tempo todo). A fotografia é da amiga Vanicleia Silva Santos que apresentou este livro aos seus alunos da UFMG ontem.
Gostaria de compartilhar o comentário de um dos autores, do grande amigo, pesquisador, curador e mestrando em Antropologia Social pela USP, Alexandre Araujo Bispo, feito via Facebook, hoje pela manhã:

Renata e a foto é muito impressionante não? Ficou ótimo, parabéns a nós, mas sobretudo a você que organizou os artigos, reuniu os autores, enfim fez a produção cultural do projeto. Agora é torcer para que o material possa ajudar no fomento e exercício dos direitos étnico-raciais. No Brasil sabemos o quanto há desigualdades e a democracia está muito longe de realizar direitos básicos. Basta olharmos para o descaso com a gestão da educação e da saúde, que como sabemos são pilares do exercício democrático. Espero que nosso livro auxilie os professores que estão dispostos a mudar abordagens, a rever seu modo de trabalhar em sala de aula. Afinal a tarefa de todo adulto, como lembra Hanah Arendt é educar os pequenos, ou os jovens que estão chegando aí....


Para informações sobre aquisição, favor contatar: atendimento@finotraco.com.br

sexta-feira, 30 de março de 2012

Arte africana no British Museum

No Brasil, ainda é muito difícil encontrar objetos de arte africana para apreciação, observação e estudo. Que me recorde os únicos lugares onde isso é possível ainda que, com muitas limitações, são os museus de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE/USP) e o Afro Brasil. 
Segundo um amigo meu que trabalhou anos no MAE/USP, a instituição possui um rico acervo, entretanto, boa parte dos objetos estão na reserva técnica por falta de espaço físico. 

Já no Museu Afro Brasil, podemos afirmar que os objetos expostos poderiam dar conta de demonstrar a grande diversidade populacional e étnica do continente. Isso não ocorre devido ao grande número de objetos da Nigéria e do Benim provenientes da população iorubá. Vale lembrar que a instituição, inclusive, já sofreu críticas, por parte de pesquisadores, por conta deste destaque que o povo iorubá recebe, especialmente pelo fato do curador do museu ser baiano. Dizem que na Bahia e em outros espaços do Brasil reina a "nagocracia", lembrando que este grupo étnico africano (iorubás ou nagôs), foi dos últimos a aportar no Brasil durante o período da escravidão (século XIX), justamente da região da Bahia. Assim, não é de se espantar que as raízes africanas fundadas a partir dos iorubanos sejam tão fortes e presentes, especialmente em Salvador, onde mais de 80% da população é negra, vide Candomblé, acarajé, Olodum e outras manifestações culturais da região. Além disso, no acervo estão separadas as obras de arte tradicional africana (feitas por artistas e artesãos, geralmente, para cerimônias religiosas, uso cotidiano  ou como marcadoras de hierarquias, nunca ou raramente para apreciação). Há pouquíssimas peças de arte contemporânea expostas, apesar da instituição ter promovido algumas exposições focadas no que é produzido hoje no Benim e pelo artista do mesmo país Gérard Quenum. Lembrando que ele foi contemplado com uma bolsa de residência em 2010 por esta instituição e que foi a partir dela que produziu as obras que foram expostas. Na época, me espantou o fato da bolsa residência, novo projeto da instituição na ocasião, ter sido concedida a um renomado artista africano com tantos artistas afro-brasileiros precisando desta força. Critérios misteriosos...
Pensando no diálogo entre passado e futuro, tradição e subversão, função e contemplação, acredito ser interessante destacar aqui a maneira como o British Museum expõem as obras das artes africanas. A enorme instituição fundada em 1759, sendo o primeiro grande museu público, gratuito, secular e nacional em todo o mundo, tem  em seu acervo magnífico obras de arte de todos os lugares do mundo. Se não for de todos, ao menos é o que parece. Pensando em África, por exemplo, o acervo está dividido em "África: artes e culturas", Egito Antigo", Sudão Antigo e Medieval" e "Egito Bizantino". Fantástico! O maior respeito pela diversidade.
Na parte de "África: artes e culturas", os setores de expografia e museografia, juntamente com a curadoria, foram geniais mesclando objetos tradicionais aos contemporâneos. Logo na entrada nos deparamos com obras de arte feitas por artistas africanos de hoje e que nada têm do exotismo que, em geral, é destacado nas produções africanas. Ou seja, ao contrário do que os estigmas reforçam, estes artistas africanos como El Anatsui (Gana), por exemplo, são pesquisadores de suportes, processos e conceitos, como qualquer artista contemporâneo que, porventura, encontremos em outros espaços que exibem arte contemporânea. Suas malhas construídas a partir de fragmentos de alumínio estão bem na entrada deste espaço.
Na sequência, encontramos máscaras africanas que podem ser totalmente vestidas, isto é, não cobrem somente a parte da cabeça e não necessitam de vestimenta para compor a roupa do mascarado, a própria máscara é a vestimenta completa.
Muito me surpreendeu ver e conhecer a parte sobre cerâmica, coisa rara, tanto pela fragilidade dos materiais quanto pelo próprio material. Reparem que nem temos nenhum museu somente sobre cerâmica no Brasil. É crucial exibir este saber das populações africanas porque muitas vezes, ao tratar de cerâmica, são enfatizadas somente as populações indígenas e gero-romanas. 
Também fiquei absolutamente envolvida pela história da "Árvore da Vida" ou "Tree of Life", escrito assim deste jeitinho. Após o final da guerra civil em Moçambique, que ocorrei entre 1976 e 1992, os artistas Cristovão Canhavato (Kester), Hilario Nhatugueja, Fiel dos Santos e Adelino Serafim Maté se uniram para propor o recolhimento das milhares de armas usadas neste longo conflito e, a partir das mesmas, produziram várias formas com fragmentos destas armas. Uma desta formas é esta linda árvore. O nome do projeto era   Transforming Arms into Tools (TAE) . 
Os famosos saleiros encomendados em portugueses a artistas locais beninenses, datados do século XVI, também encontram-se em exposição e registram o contato entre estas duas populações. Os saleiros confeccionados em marfim eram sinal de status e são ricamente esculpidos descrevendo, muitas vezes, fatos que ocorreram. Isso também ocorre com as portas em madeira produzidas pelo povo Senufo, da Costa do Marfim. 
Ah, mais meu deleite maior foi ver a máscara em marfim, feita no século XVI por artistas iorubanos. Na verdade, ela é bem menor do que eu imaginava, cabe na palma de uma grande mão. Mas a sua ornamentação é fantástica, de grande sofisticação.
Bem, de primitiva, naquele sentido que se refere ao selvagem, ao pouco desenvolvido nos moldes ocidentais e tudo mais, a arte africana, tanto a tradicional quanto a contemporânea não possui nada. talvez tenha no sentido de primera, de primeira, ou seja, das primeiras manifestações estéticas da humanidade repleta de profundos pensamentos e soluções estéticas. Sorte dos reis, sorte dos deuses... 
Não comentei todas as imagens que aparecem abaixo neste texto, a arte africana tradicional e contemporânea é um assunto com o qual eu flerto por questões de apreciação e de fundamentação, porém não é a minha área de estudo. Assim, vou me segurar por aqui para não escrever mais nada que seja incorreto. Vou completar este texto aos poucos. 


Seguem algumas imagens" deleitem-se!


Trabalho feito com fragmentos de alumínio por El Anatsui.
Detalhe.
Escultura representando pessoas trajada com máscara de hipopótamo. Feita por Sokai Douglas em 1995, há outros trabalhos lindos deste artista na internet. Esta máscara é comum entre os Kalabari, que vivem na Nigéria. 
De frente, de trás...
Vitrine com máscaras.
Placas comemorativas feitas em latão. As mesmas são provenientes do Benim e registram passagens relacionadas aos reis, sendo, extremamente raras na atualidade.
Uma das placas mais conhecidas e copiadas. Acredita-se que foram produzidas a partir do século XIII.  Nesta aqui temos um oba (rei) representado com dois serviçais ladeando sua figura. Sabe aqueles rostinhos pequenos lá em cima? São representações de portugueses, o que demonstra este antigo contato entre Europa e África.
Máscara do século XVI da corte do Benim, representando Idia, a mãe do obá Esigie. Ele determinou que a figura da "Rainha-Mãe" fosse reverenciada nesta sociedade. Esta peça, provavelmente, era usada como adorno no pescoço. Ah, e parece muito maior do que é.
Braceletes em marfim, peça extremamente rara na qual há uma referência a Olocum. Atenção ao lindo e delicado trabalho de escultura que faz com que a superfície se assemelhe a um rendado.
Um saleiro. Este tipo de objeto era altamente valorizado entre os portugueses. Repare que são os mesmos que estão representados com barbas e armas. 
Cabeça de obá (rei), em latão. Outro objeto de arte muito cobiçado.
Máscara para vestir do povo Chewa, do Malawi. É usada em rituais funerários e feita em cestaria, extremamente rara diante das várias máscaras feitas em madeira. A durabilidade, entretanto, é menor.

Adivinhe de que materiais são feitas estas esculturas e descubra mais adiante.
Mais uma chance...
...E mais outra. Resposta em segundos.
Uma excepcional porta do povo Igbo, da Nigéria. Muros e portas ricamente adornados representam o status de seus proprietários. 
Detalhe.
Escultura Igbo. Ela é construída por parte e reparem nas armas que sinalizam o contato com o mundo europeu. As cores e os grafismos também merecem um olhar especial, mais detido.
Esculpida para adornar um palácio real , o de Ikere, este par de portas comemora o momento em que o rei Ogoga recebeu o administrador britânico Capitão Ambros, em 1901. Reparem abaixo nas figuras dos prisioneiros carregando caixas com conchas e nas figuras das esposas do rei na outra fotografia. Bem, aqui temos indícios de que alguns objetos de arte tradicional africana são testemunhos históricos. As portas foram feitas entre 1910 e 1914.
Prisioneiros...
Esposas do rei...
Dos grandes artistas contemporâneos: Gérard Quenum. Esta escultura , em parte, se refere a tradição de se representar mães com filhos, e sugere a noção de maternidade nesta sociedade.
 
Brinquedos, especialmente bonecas, juntamente com a madeira,. são alguns dos materiais empregados para o artista produzir suas esculturas que estão entre o interesse e o estranhamento.
Detalhe.
Já ouviu falar da árvore da vida, a "Tree of Life"?
Do que foi feita esta aranha? Mosca?
Fragmentos de armas transformadas em arte.
"Tree of Life" sendo admirada por um visitante.
Mocinha encantada com os objetivos feitos a partir do projeto "Tree of Life". Por que a gente não fica sabendo destas coisas lindas que ocorrem em África?
Assim como a estatuária em madeira, há vários povos que fazem peças em cerâmica. Sem ela não haveria técnica da cera perdida, por exemplo.
Quem disse que a arte em cerâmica se restringe as populações indígenas?
Detalhes.
Vitrine de armas. Para saber mais, falar com Renato Araujo, pesquisador do Museu Afro Brasil.
Um dos espaços do British Museum. Enorme e fantástico!

www.britishmuseum.org/