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sábado, 9 de abril de 2011

"Peixes e Peixas ou Homenagem à Ariane": cor e flerte com o erotismo!

"Peixes e Peixas" foi como a artista, amiga e educadora Ariane Xavier nomeou amigos e amigas, colegas, paixões e passantes durante o inesquecível Carnaval que passamos juntas em 2011 na companhia de muitas pessoas queridas.

Os trabalhos que aqui apresento tiveram estes momentos como referência criativa e, a partir de linhas e curvas que nos conduzem por caminhos novos, mágicos, repletos de descobertas que desembocam em dores e prazeres, adornados por brilhos do suor, de lantejoulas, de fluidos e paetês, cá estão finalizados com palavras que não se completam que se tornam gritos, sussurros, palavras titubeantes.

Lápis e cor branco, guache preto, tinta acrílica, adesivos e fitas fazem parte destes trabalhos juntamente com outros materiais foram utilizados nestas produções. A cor preta é muito difícil de se fotografar, as fotos ficarão melhores, em breve...

 Klimt, Giovanna Casotto, Milo Manara, Frederic Boilet, Rodin e seus desenhos eróticos e Juliana Alves nos olhos, na libido, na criação e na cabeça.

"As serpentes da água" de Gustav Klimt, dos seus muitos desenhos e pinturas que emanam sensualidade.

Giovanna Casotto, HQ fantástico com desenhos realista e histórias inacreditáveis

O Mestre Milo Manara aqui bem comportado

Frederic Boilet

Um dos vários desenhos eróticos de Rodin

Juliana Alves: linda de morrer!
Tivemos o Carnaval que quisemos ter! Esperado por muitos odiado por outros tantos! Em verdade, cada pessoa tem que aprender a encontrar o que lhe dá prazer durante os quatro dias (ou mais, dependendo o estado).


























quinta-feira, 7 de abril de 2011

Não à ditadura do cabelão: meu cabelo é duro, Sr. Luiz!!

Vida de menina negra não é fácil. Estou falando de meninas negras de cabelos crespos, não das que têm cabelos como os das atrizes Taís Araujo ou Camila Pitanga que são maravilhosamente anelados. Há mil variáveis relacionadas a essa questão, mas aqui falarei dos cabelos que foram tema de músicas marcantes e importantíssimas para a musiografia nacional como "Fricote", do talentosíssimo Luiz Caldas que contribuiu para o êxito do inferno de infância e pré-adolescência das meninas que nasceram entre 1976 e 1982, um dos maiores sucessos do axé music. Observe a letra:

Fricote

Composição : Luiz Caldas E Paulinho Camafeu

Nega do cabelo duro
Que não gosta de pentear
Quando passa na baixa do tubo
O negão começa a gritar
Pega ela aí
pega ela aí
Pra que ?
Pra passar batom
De que cor?
De violeta
Na boca e na bochecha
Pra que?
Pra passar batom
De que cor?
De cor azul
Na boca e na porta do céu

Há várias outras músicas depreciativas que nos falam sobre "nega", como os compositores gostam disso... Que criativo...

Bem, este blog é dedicado à arte, estética (não do corpo, da forma) e correlatos, não é um blog de militância apesar deste tom permear alguns textos, como este. Minha mãe sempre tomou o cuidado de pentear meus cabelos e dos da minha irmã. Fazia belas tranças enraizadas, uns rabinhos bem puxados que me renderam olhos amendoados (rs). Mais tarde quis passar o ferro quente em meus cabelos para ver como ficava e durante anos, dos meus 14 aos 22 anos alternei os cabelos alisados à ferro com tranças. Na época do colégio era, para mim, inconcebível não estar de cabelos lisos, era um pavor! Eu tinha que alisar meus cabelos aos finais de semana e suportar a transpiração do couro cabeludo que fazim as raízes retonarem ao seu estado original. E foi assim até o momento em que eu quis me lembrar de como era a textura real de meus cabelos sem o efeito destrutidor da "chapinha" (esquentada no fogão). Nisso eu já tinha 23 anos e estava no mestrado pesquisando a história da minha família. Fui aos poucos esperando os cabelos crescerem e ele virou um grande pompom, black, que chocava e impresionava as pessoas por onde eu passava porque ainda não estávamos na moda do black novamente (sempre há um "blackinho" lá no fundo em todas as propagandas, é "fashion"!). Engraçado como algumas pessoas se ofendem com características dos outros. Hoje, alteranando tranças, black e rendida a um pouquinho de megahair (cuidado com os piolhos dos cabelos alheios!!), percebo o quanto é triste as pessoas não se darem o direito de exibirem os cabelos, corpos e etc. que lhes são próprios, que são heranças de seus pais, avós e que as diferenciam dos demais. A história da arte nos mostra um pouco destas alternâncias de gostos e padrões que interferem nas vidas das pessoas de maneira, por vezes, decisiva.
Voltando de Pernambuco este ano, o estado brasileiro que mais adquiriu africanos no século XVII, me espantou a quantidade de mulheres negras que não querem ser tão negras assim e que massacram seus cabelos cacheadíssimos, crespíssimos, carapinhas com produtos que incluem, inclusive, formol. Triste!
Vendo este site maravilhoso chamado "Le Coil", me deparei com mulheres lindas, negras e mestiças, mas todas de cabelos crespos que elegante e originalmente mantêm suas madeixas naturais e autênticas. Não precisam se padronizar para fazer com que seus cabelos se pareçam com os das propagandas da Revlon e congêneres estende-os ou disfarçando-os com longos cabelos alheios como fazem algumas divas norte-americanas e colegas brasileiras que, creio, nem devem mais ter cabelos naturais.










Fotos de mulheres que estão no site "Le Coil"


Dredados (adoro!), descoloridos, black, trançados, com faixas, com flores, raspados de um só lado, descabelados, presos, parcialmente ou todos raspado, esvoaçados, vamos exibir a cabeleira dura por aí. E Sr. Luiz Caldas: eu gosto de pentear!

Depois de visitar para alguns centros europeus imaginando que encontraria cebelos crespos fantásticos, me decepcionei e vi que nós de São Paulo somos muito, mais muito mais estilosas que muitas gringas mundo afora (Luciane Ramos, Maria Gal, Lucélia Sérgio, Dj Dani Negra, Janette Santiago, Priscila Preta, Débora Marçal, Janaina Freitas, Selma Paiva, Cintia Sampaio, Samira Carvalho, Nina Vieira, Jennifer Nacimento, e muitas outras, "is us on the tape"!).

Em breve, imagens de mulheres e homens de São Paulo!

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Como prometido, seguem algumas imagens, virão mais algumas outras.
Márcia, vendedora na feira descolada do Center 3

Carla, também vendedora e irmã de Márcia. Adoto os birotinhos!

Fábio, estava a passeio ao que parece. Cabelo crescendo.


Zinho Trindade, Mc e poeta.

Priscila Preta, atriz e seus cabelos vermelhos.

Débora Marçal, atriz e seus dreads recém cultivados.


Jennifer Nascimento, socióloga com cabelos levemente cacheados e descoloridos, estava um arraso!


Selma Paiva, modelista e cantora, hoje este cabelão de formas infinitas, ela chegou de birotes.

Jaime Diko, que promove a festa na Ass. Monte Azul.

Cida, ajuda na organização da festa. Detalhe do tênis abaixo!


Linda de morrer! Cabelos descoloridos. Detalhe da pernona e botas vaqueiro abaixo!


Olha o detalhe dos dreads abaixo.


O fotógrafo da noite e seus dreads.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Cola lá na Goma: desdobramentos em ações no VAI 2011

Nasci na Zona Norte, local que meus parentes diziam ser reduto da "negrada". Mais tarde fui percebendo o quanto a população negra, de fato, marca esta Zona da Cidade de forma muito característica: samba, suor e cerveja (mesmo!). Dos fundos da casa da minha avó Alba no Mandaqui nos mudamos para o fim de mundo: Conjunto Habitacional José Bonifácio! Meus pais, eu e minha irmã e meu irmão Juninho na barriga. Tudo era longe e estação de metrô mais próxima era a Belém.
Infância: parquinhos com tanques de areia, brinquedos que sempre quebravam devido ao vandalismo das crianças mais velhas, mato, terrenos baldios, barro branco, bicicleta, quadra poliesportiva abandonada pela prefeitura e as outras brincadeiras que costumávamos fazer. Ainda bem que eu era uma criança com bastante imaginação e que conseguia juntar uma meninada também porque os adultos do prédio onde eu morava não promoviam nada. Nada...
Só fui me dar conta da pobreza de aparelhos públicos na região quando, após estudar a vida inteira lá, fui parar na ETEC Carlos de Campos (Brás: era chavão dizer "Vai morrer no Brás!", nos anos de 1990). Nesta escola deparei-me com muitas novidades, porém, seguem as piores (e marcantes): "existe gente rica de verdade (!)"; "agora eu sei o que é ser classe média (não era eu, claro!)"; "há pessoas que optam por serem racistas e preconceituosas sim"; "as pessoas não conhecem de onde venho, porém possuem opiniões formadas sobre uma COHAB!" 

"Tem só bandido!"; "Só maloqueiro!" etc., etc., eram algumas das falas que ouvia com muita chateação: meus pais não eram bandidos, sequer eu conhecia algum e meus vizinhos e ninguém ao meu redor era maloqueiro. Em um determinado momento eu me sentia constrangida por viver neste lugar, como se a maioria das pessoas neste país pudessem escolher onde viver. Não, esta escolha não é possível a todos!

Na universidade, a história pouco mudou. E anos depois decidi realizar o registro fotográfico "Cola lá na goma", em 2003 a partir de imagens de lugares onde eu brincava, por onde passava a feira, onde fiz catequese, meninos empinando pipa, jogando futebol pessoas bebendo nos bares, coisas deste e de muitos bairros e que não refletiam a marginalidade associada à Itaquera e região. Pra dizer a verdade, a primeira vez que vi uma pessoaarmada foi aos 22 anos e eu morava no Ipiranga, estava em um ônibus na Vila Mariana voltando para casa após um longo dia de pé mediando exposições. Em Itaquera eu nunca tinha visto uma arma ou uma pessoa morta por tiro.

As imagens que registrei foram fotocopiadas e coladas em bairros "nobres" da capital como a Vila Mariana. A ideia central: "se você fala da goma e não cola nela, ela cola aqui!"Nas tardes da semana, na noite, fui colando estas imagens. Fui selecionada para expor na CEMIG em Minas Gerais, o trabalho foi... E, agora, VAI! Redigi um projeto no qual espero apresentar melhor o Conjunto HabitacionalJosé Bonifácio aos seus habitantes a partir da observação de suas construções e geografias, da história e da arte. Convidei meus queridos irmãos Edson e Marcos Vinicius, os grandes amigos e parceiros Alexandre Bispo e Paola Cavallari, sempre preocupados com o mundo circundante e com a vida que as pessoas levam nele, além de duas pessoas ainda sondadas. Queremos com "Artistas Viajantes de nosso Goma" apresentar este lugar a quem nele vive sob outra perspectiva: a da informação e da criação! Saber, por exemplo, em que contexto que este bairro-dormitório surgiu; como ele se aparelhou aos poucos (falta demais ainda!); que construções são relevantes etc., tendo como linguagem a palavra e a visualidade.

Ficamos muitos contentes com esta contemplação e esperamos que este trabalho transforme a consciência das pessoas "cohabeiras": as transformações partem de dentro e este é o pontapé inicial!

Oito anos depois, "Cola lá na Goma!" rende frutos e registrarei outras periferias que estou conhecendo a partir do contato com gente fina, inteligente e sincera com quem tenho conversado, rido  dançado como Zinho e Manoel Trindade, Allan da Rosa, Rafael Franja; as companhias de teatro As Capulanas, Os Crespos, Clariô, Sarau do Binho, gentes e locais que eu não conhecia e que me alimentam direta ou indiretamente no sentido de se pensar as multiplicidades de mundo que existem na capital paulistana e como trazer, compartilhar e instigar arte, cultura e conhecimento (direito de todos) para quem é "maloqueiro".

P.S.: Maloca é um tipo de cabana comunitária utilizada pelos nativos da região amazônica, notadamente na Colômbia e Brasil. Cada tribo tinha sua própria espécie de maloca, com características únicas que ajudavam a distinguir um povo do outro (creio ser maloqueira, quero estar em grupo, com pessoas de onde for!).

Algumas imagens:










segunda-feira, 28 de março de 2011

Arte em pequenos formatos e "Ela", de Larissa Glebova

Observando e tentando acompanhar a produção recente feita em Artes Visuais, por vezes, tive a impressão de que são os trabalhos impossíveis de serem carregados pelo próprio artistas são os que são valorizados pelo mercado. Incluindo aí aqueles que os artistas não conseguem viabilizar sozinhos, que necessitam de pedreiros, marceneiros, pintores, designers e todo um apoio técnico profissional para além de suas habilidades pessoais a fim de se criar a obra de arte.
Não é bem assim. Faltou pensar no que o mercado deseja exibir em deoerminados momentos. Há vários artistas interessados em linguagens menos privilegiadas pelo circuito, talvez por parecerem efêmeras, ou por darem a impressão de "retaguarda" das Artes Visuais, sendo uma delas o desenho. E como há gente desenhando. Aqui mesmo no blog postei alguns trabalhos meus em desenho e comentei rapidamente sobre este exercício que, para muitos artistas, restringe-se à infância, como se somente crianças precisassem desenhar. O fato é que são muitos os artistas desenhistas e, alguns deles, se utitizam de formatos pequenos e em papel.
Em entrevista recente com a artista Rosana Paulino, a mesma manifestou-se sobre esta invisibildade do desenho como forma de expressão dentro das exposições atuais. Conversamos sobre a exposição que estava em cartaz no SESC Pinheiros, "Realidades: Desenho Contemporâneo Brasileiro", de curadoria de Nazareno e a participação de 17 artistas. Desenho neste entendimento mais "strictu" só havia mesmo o de Nino Cais, trabalho bem interessante, somente de linhas, brincando com a relação entre objetos e figura humana. Os demais artistas perpassavam o desenho, porém não pude perceber a mesma densidade que vi em Nino. Foi uma excelente iniciativa de Nazareno a de exibir produções que partem de materiais mais simples e da linguagem que é a base de qualquer criação artística: a linha que forma e deforma.
Alguns salões de arte ainda dão mais espaço para a produção em menor escala do que as faroônicas que se tem visto pór aí pós-modernidade: Salão UNAMA de Pequenos Formatos, em sua 17. Edição e com inscrições abertas até 04/04/2011. Mais informações: http://www.unama.br/

Também pode-se destacar a exposição do artista Leonilson no Instituto Itaú Cultural, "Sob o peso dos meus amores", retrospectiva do artista dos formatos e temáticas intimistas, até 29 de maio.

Pinçando uma artista desenhista que fez sua escolha pelos pequenos formatos, observemos ela: Larissa Glebova. Há dois anos ou mais a artista vem trabalhando na série "Ela", feita cuidadosamente em seus cadernos de desenhos dando visualidade aos sabores doces e amargos que temperam a feminilidade dos anos 2011.

Segue abaixo um bereve texto de apresentação que redigi para este belo e intenso trabalho.

“Ela” (s): a linha que perscruta o ser


Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.
Clarice Lispector

            Feminina... Menina... Delicada... Suave... Grácil... Não, não se iluda ao observar os traços precisos e finos; as composições equilibradas; os sapatos, os vestidos e os penteados que nos remetem às figuras de bonecas e a um universo que se apresenta superficialmente lúdico ou diáfano. O mundo cor de rosa e repleto de flores e laços que comumente são associados a orbe das mulheres não é o mesmo no qual “Ela” vive: reflete, sente, pondera, interpreta, imagina, sofre, ama, aguarda...A partir da tradição do desenho como linguagem escolhida para desenvolver a série “Ela”, a artista Larissa Glebova, traz a luz a intimidade sentimental e dúbia que permeia a noção de feminilidade revelada aos homens por Sigmund Freud e, até hoje, envolta em estigmas e em incompreensões do vem a ser “mulher”.
As inquietações, reflexões, dúvidas e outras questões que são levantadas pelos desenhos a partir desta série podem se relacionar com as vidas de muitas mulheres, especialmente, com as daquelas que não se encaixam no modelo feminino elaborado, imposto e esperado do sexo “frágil” por nossa sociedade. “Ela” metaforiza o ser feminino no mundo pós-moderno lançando mão de recursos poéticos, sejam eles visuais ou verbais, de certo psicologismo, da “macunaimização” do ser que se cinde, se equilibra, se manipula, se entrega, se apaixona, se despedaça, se disfarça, se mutila, se alegra, se divide, e que, por meio destas ações e sensações, não procura nada mais do que seu lugar em um mundo em que não são todos (as) que possuem o seu espaço. “Ela” não sente contrações, não amamenta, não auxilia as crianças no dever de casa, não prepara a refeição da família ou faz massagens nos pés de seu marido após 40 horas de trabalho semanal. “Ela” dá visibilidade à outra possibilidade de ser mulher e experenciar esta condição.
Dialoga com os trabalhos voltados para a realidade de casamentos violentos abordados por Beth Moysés; com a crítica ao cruel padrão de beleza ditado pela moda e pela adoção do gosto estético europeu discutido por Nazareth Pacheco; com as mulheres de olhos e bocas cerzidas de Rosana Paulino. Visualidades aparentemente belas que podem ser lidas como críticas aos papéis que são reservados às mulheres, porém, o que “Ela” deseja, ou assim nos parece, além de ser, é não precisar dar sentido aos rótulos imputados por outros através destas linhas tênues, firmes e contínuas que delineam figurativamente estes desejos, não sendo “fofa”, não sendo cor de rosa.
Ela disponível

Ela máscara de gás

Ela órgão

Ela quebra-cabeça

Ela queria te alcançar

Ela afetos

Ela camuflagem

Ela entre

Ela mágica

Ela marionete