quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um pouco de arte na vida urbana

Prepare-se para ler um post longo, com muitas imagens. Precisamente umas 93 imagens. Infelizmente não consegui realizar uma seleção mais enxuta, porém considero todas as imagens apresentadas muito importantes para contextualizar a ideia que exponho aqui. E se trata da arte nas nossas vidas nos grandes centros urbanos: oportunidades para ver, temáticas que aproximem a produção de artes visuais dos simples mortais e o conceito de rua como galeria aberta que vem tomando espaços em muitos metrópoles.
Que as grandes cidades dispõem de muitos e ótimos espaços para se apreciar arte, isto não é nenhuma novidade. São Paulo, por exemplo, em um país em eterno desenvolvimento (e como precisamos desenvolver, hein? Nossa, cada vez que viajo volto com a noção de que temos muito, muito trabalho pela frente), possui muitos museus. Dos enormes como a Pinacoteca do Estado de São Paulo aos menorzinhos como a Casa Guilherme de Almeida. Dos extremamente tradicionais como o Museu de Arte de São Paulo aos que fazem uso dos avanços da high tech como o Museu do Futebol ou o da Língua Portuguesa.
Trabalhei para o SISEM em 2010 e há museus inimagináveis pelo estado inteiro, geralmente, são museus históricos, que contam sobre as fundações de cidades a partir de objetos antigos. Entretanto, não são menos importantes na medida em que situam a população local acerca de sua história, de seus fatos, de sua cultura. Este órgão é o Sistema Estadual de Museus e eles sistematizam tudo, da disposição das obras ao atendimento do público. Ou ao menos tentam a partir de cursos de formação para os funcionários. São inúmeros museus, com acervos de várias naturezas...
Além deles há a atuação dos centros de cultura, das fundações e dos institutos como os excelentes Centro Cultural Banco do Brasil, que trouxe a Mariko Mori no final de 2011, exposição fantástica desta grande performer japonesa que, ainda por cima, é herdeira da Shiseido, pode? A Shiseido é uma marca japonesa de cosméticos, fazem produtos de muita qualidade. Desculpem o momento futilidades. A exposição da Mariko Mori trouxe reflexões absolutamente pertinentes para se pensar sobre a vida urbana sem ser pregadora, militante, rasa. Buscou mesclar aspectos do cotidiano contemporâneo nas grandes metrópoles às questões existenciais. Bem, a arte, desde sempre, esteve atrelada aos porquês sobre a nossa existência. Entretanto, tanto as pessoas têm se afastado cada vez mais da observação da arte por este viés que nos fala dos sentidos, dos sentimentos de coletividade, das ponderações sobre a espiritualidade, ou seja, das dúvidas que sempre nos acompanharam e que, sempre vão nos acompanhar exatamente porque não temos as respostas, quanto os próprios artistas estão mais preocupados seguir certos cânones do que a tratar destes assuntos considerados menores. Como se a arte, a produção de arte contemporânea tentasse se sobrepor ao fundamental, ao básico, como assim a vida é menor? Sim, os artistas de hoje, mais do que nunca, me parecem sentirem medo de serem profundos, do mergulho na alma, na dor, na dúvida, nas paixões do ser humano: "Então, vamos combinar de tratar somente de assuntos altamente intelectualizados, vamos entender nós e mais dois críticos e está bom". Porém, não está bom... Na medida em que estes espaços de cultura e de arte, de propagação de conhecimentos e saberes são nossos, são mantidos com nossos impostos em sentido lato, desde as instituições ligadas ao sistema financeiro até os museus hEa que se pensar no que é exposto, uma vez que não se deve ou não deveria direcionar a produção de um artista. Todos recebem dinheiro público ou que seria público se não fossem abatidos de impostos em pró da cultura e da arte. Mas, muitas vezes, o que estes espaços nos oferecem não atendem as nossas necessidades estéticas e priorizam um gosto que não se conecta de modo algum com o que o grosso da população gostaria de ver, aprender e discutir. Então, se a população, de modo geral, tem um "gosto duvidoso", cabem a estes espaços todos, à escola e aos educadores a transformação desta situação, pedagogicamente falando, ainda há a necessidades de uma alfabetização visual.
Três observações…
1. Estas instituições deveriam urgentemente pensar em estratégias para levar o povo até elas. Estive no Victoria and Albert Museum no mês passado e, em plena sexta-feira fria e a noite, o museu estava lotado com pessoas querendo saber mais sobre a cultura brasileira. Praticamente uma festa! O evento ocorre todas as sextas e se chama Friday Late. Fui na festa de nome "Hot Brazil", que começou às 18h30 e foi até às 22h. O V&A Museum foi o primeiro museu do mundo a pensar em como aproximar o acervo e as atividades da instituição do público visitante. As estratégias deles são inacreditáveis para padrões do mundo inteiro. Pensar em uma programação que avance para além dos horários nos quais o público visitante, geralmente, está trabalhando, é fundamental.


2. Em São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa e o Museu de Arte de São Paulo possuem  dias nos quais funcionam até mais tarde. Essa ação deveria ser um padrão, além de ser obrigatório o dia da gratuidade. Em verdade, como "é tudo nosso", nenhum museu deveria cobrar entrada, como acontece na Inglaterra, a não ser nos casos de algumas exposições temporárias, Vamos lembrar: é tudo nosso! É da humanidade, é para conhecer, apreciar, observar, aprender e entender mais o humano a partir de suas produções estéticas, simples assim. Fundamentalmente, também para salvaguarda das obras, quando há o que salvaguardar.
3. Os temas de exposições e formas de fidelização do público visitante também são interessantes para se pensar. Não fidelização como fazem as operadoras de telefonia celular, mas como fazem os lugares que desejam que voltemos e levemos mais pessoas. Sabe aquele bom boteco que a gente vai levando mais e mais amigos? Ou o restaurante de precinho amigo? 

Bom, se a arte na vida urbana fica um pouco prejudicada nos espaços oficiais, especialmente se pensando nos horários de funcionamento, nem falemos das galerias brasileiras. Simplesmente a maneira como o circo está montado nos diz:"não entre se não for comprar". Os funcionários, de maneira geral, são pouco simpáticos e amistosos. Sim, é claro que é um negócio de venda de arte e não há absolutamente problema algum em relação a isso. Sou artista visual e sei o quanto é duro vender uma obra, quem bom que há quem faça isso por nós porque também temos que viver, comer, dormir e de preferência bem. O problema é que as galerias não se tornam espaços de trocas, tanto de obras quanto de contatos, quanto de dinheiro, de conhecimento... Não se abrem para quem não está familiarizado com este universo e, portanto, não formam público, a não ser o de sempre. A formação de público comprador pode se iniciar aí. A Zipper Galeria tem realizado alguns debates e conversas, se abrindo para o público interessado, de estudantes, apreciadores, artistas etc.
Gostaria de trazer dois bons exemplos de espaços de abertura da produção, no sentido da comercialização da mesma e do acesso à arte produzida hoje. Duas novas alternativas muito interessantes e que, por acaso, vi em outros lugares fora do país. Espaços pequenos que funcionam muito bem porque, justamente, estão tentando mostrar arte produzida hoje por quem e para quem vive nas grandes cidade como São Paulo. Enfatizo que são apenas boas iniciativas que poderiam proliferar por muitos lugares do Brasil, não necessariamente, excluem os espaços mais formais de apreciação e salvaguarda da cultura e da arte (quase sempre eruditas, não?). Mas, nestes espaços me parece que alguém parou para escutar gente comum que gosta de arte. Na esteira das grandes instituições internacionais, estes pequenos lugares nacionais trazem idéias novas para São Paulo.
A Galeria Choque Cultural que está localizada na Vila Madalena, na Rua João Moura e que já realizou parcerias com o Museu Afro Brasil e com o Museu de Arte de São Paulo é um deles.  Fundada em 2003, primeiro como editora com especial dedicação aos cartazes e, em 2004, como galeria, na qual os artistas da chamada Street Art encontraram um lugar para chamar de seu, além de formação e orientação sobre como acessar o mercado de arte. A considero como um dos mais democráticos espaços de arte de São Paulo.  Para saber mais sobre a história da Choque Cultural:


Outro lugar muito interessante e acessível para quem quer apresentar seus trabalhos é a Casa Vértice. Há, inclusive, alguns trabalhos meus à venda neste belo, agradável e estiloso espaço que, também, fica na Vila Madalena (precisa espalhar estas iniciativas pelos bairros e cidades deste Brasil). A Casa Vértice fica na Rua Fidalga e ainda é possível beber e comer alguma coisinha nas mesas de fora. Além da loja com os mais diversos objetos de arte para o lar, escritório e afins o espaço também oferece exposições seguindo os modelos das galerias, só que com um sorriso no rosto:


E como este texto trata da arte na vida urbana, sendo as instituições formais e galerias de arte lugares pouco, por vezes, receptivos aos interessados que não pertencem à classe média ou que estudam e/ou trabalham com arte ou que são endinheirados, onde quem não se vê representado ou contemplado neste universo, em geral, não consegue apreciar arte sem sentir-se perseguido pelos seguranças dos lugares citados, serem olhados de soslaio, termo que utiliza a amiga e artista Solange Tesla Ardila, então, aqui vão umas imagens de obras que estão nas ruas.
As ruas se transformaram em espaços de apresentação de arte, e cada vez mais as intervenções artísticas estarão em nosso cotidiano, seja como grafite ou grafitti, para quem gosta do preciosismo da palavra, ou lambe lambes ou ainda outras formas de intervenções. São Paulo é ser considerada a capital do grafite e é meio caótica, é a gênese da megalópole... As coisas estão um tanto fora de si, coisa que muita gente artista gosta porque diz ser intrínseca a esta produção de rua. Que seja...
Em Londres, por exemplo, fiquei procurando arte nas ruas e só foi encontrar em Brick Lane Street porque minha amiga Cilene Germano (da época do Ensino Fundamental), me apresentou este lugar. A cidade de Londres é absolutamente limpa em todos os bairros, paredes sem nada, nada. Bonito como a vida deve ser... Porém ao adentrar Brick Lane e seus arredores tudo muda, desde a aparência dos edifícios até as pessoas que circulam por esta área, muitos mais gente autêntica esteticamente por metro quadrado, será que uma coisa influencia a outra?
Em Buenos Aires há pixações (prefiro a "pichações") de cunho político por muitos bairros, quase todos. Eita povo politizado. Mas, sobretudo em Palermo Soho, também há Palermo Viejo e Palermo Hollywood, a situação muda de figura, seria, assim, um grafite interessante por metro quadrado. Há grafites em muitas lojas e bares, imprimindo uma cara para o lugar, do tipo o público que se quer ali, bares que promovem vendas de obras de arte, de oficinas de serigrafia e estêncil. Meio parecido com a proposta da Casa Vértice.
Impossível andar pelas ruas deste bairro, diga-se de passagem muito parecido com a Vila Madalena, e não parar para observar. Em verdade, sou eu e alguns que pensamos desta maneira porque, a maioria das as pessoas paravam para ver o que eu estava olhando e fotografando naquela poluição visual toda. Questão de exercício do olhar, de olhar estas cidades não lamentando a falta da praia (que não há em nenhum destes lugares citados), mas sim pensar na beleza e estruturação dela ou não, nascida, ou melhor brotada do caos. Não custa nada andar mais devagar, às vezes, olhar o aparentemente banal, trivial.
Na Revista O Menelick 2.Ato deste trimestre, Márcio Macedo, do blog New Yorkibe, fala sobre a breve história do grafite, uma das formas de arte nas ruas.
Para conhecer o Márcio e suas ótimas reflexões acesse:


Para ler o texto na Revista O Menelick 2.Ato tecle:

omenelicksegundoato.blogspot.com/

O blog vai virar site em breve.

Bom, seguem as imagens e a proposta de refletir sobre a arte nas nossas vidas, nas vidas de quem vive no meio urbano, de quem não pode ir ao museu pela tarde porque trabalha, não encontra alternativas interessantes nestes espaços pelos quais pagamos de alguma forma e, ainda por cima, querem ver coisas que nos digam um poucos sobre nós.


Em Brick Lane Street e arredores:




Já na entrada do bairro tinham vários stickers.







Este trio de trabalhos no caminho para Brick Lane Street é muito impressionante. Repare nos próximos detalhes, especialmente do retrato de homem.





Não é pintado, mas sim furado, picado na parede.

Os paulistanos já conhecem os trabalhos inspirados no joguinho do Atari "Space Invander", basta andar na região de Pinheiros e Vila Madalena. Há também na região da Avenida Paulista.


















Os Gêmeos fazendo escola. 
Detalhe da caixa abaixo.


Em Palermo Soho e arredores:


Já começa no metropolitano da cidade: grafitadíssimo!


Detalhe do grafite acima exibido.


O Post Bar, que fica em Palermo Soho, lembra a Casa Vértice que está na Vila Madalena.

Detalhe inspirado no inglês Bansky.


Detalhe do grafite acima apresentado: macabro.

















O artista Ever trabalhando, que sorte encontrá-lo por aí. Não é encomenda, é vontade!














Parte interna do Post Bar.




Obras em estêncil para quem quiser comprar. Expostas no mesmo esquema da Galeria Choque Cultural.


Ainda no Post Bar, um espaço para exposições.
















É muito difícil identificar os autores dos grafites, até mesmo pelo fato de alguns prezarem pelo anonimato, mas se os leitores do blog quiserem contribuir, acho que é bem importante sabermos os nomes destes artistas que alegram nossos dias. Sabe quando há um frio interno, por mais que faça calor for? Você sai andando e se depara com um grafite destes que te fazem sorrir...



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