quinta-feira, 8 de março de 2012

A feminilidade e beleza versus as histórias de princesas

Crescemos ouvindo histórias sobre lindas princesas que vivem em reinos encantados. Crescemos com um ideal de feminilidade onde a delicadeza e a fragilidade são ingredientes essenciais do ser mulher, ou melhor, donzela. Crescemos sabendo que a única princesa de cabelos negros é a Branca de Neve e consequentemente, é a que se aproxima, via cor dos cabelos, do fenótipo das meninas negras e mestiças, também de algumas brancas que não são tão nórdicas como a turma do Thor. Neste mundo das fadas, dos encantamentos e das belezas surreais, não há espaço para nada que fuja ao padrão cabelos dourados, pele alva, olhos cristalinos... Essa é a personificação da beleza, a beleza que crescemos querendo ter.
Na sala de aula, a professora, quase que inconscientemente, acaricia os cabelos das meninas mais claras, aquelas que sentam-se lá na frente e que a professora permite, diariamente, que apague a lousa, carregue seus livros, a acompanhe até o ponto de ônibus ou carro. Isso quando a relação não é tão profunda que a menina pode, inclusive, passar a tarde ou a noite na casa da professora, como uma aparentada, una filhinha. Que menina, sortuda! Quanto carinho! Essa menina, provavelmente, ouve em muitos lugares além da escola, comentários sobre a sua beleza: "que belos olhos claros você tem...", "que loirinha, parece uma princesa"!

Princesas Disney agora com as representações das culturas árabe, afrodescendente, chinesa e nativa norte-americana. Mesmo assim, ainda não estes os contos de fadas que ouvimos.

Assim somos criadas, ouvindo os contos de fadas, as professores, as pessoas nas ruas chamando as outras de princesas e com um sentimento de inadequação tão grande, tão frustante... O mais estranho é que, comumente, nem estas professoras e pessoas, de forma geral, são tão "nórdicas" assim, entretanto, fortalecem diariamente a predileção por este ou aquele tipo. Não, a gente não nasce com o gosto, com uma preferência, ele é formado socialmente, por nosso meio, pelas referências que, querendo ou não, fazem parte ou invadem as nossas vidas. Então, dizer: "ah, mais eu gosto de...". Não, a gente aprende a gostar de...
Sem dúvida alguma que a culpa disso não é dos irmãos Grimm, precisamente Jacob (1785 - 1863) e Wilhelm (1786 - 1859), ou de Charles Perrault (1628 - 1703), ou ainda de Hans Christian Andersen (1805 - 1875), este último que pouco escreveu contos de fadas neste modelo, ao contrário, por ser considerado "feio" gostava muito de histórias sobre superação. Se pensarmos nos lugares e onde vieram estes contos de fadas e, portanto, tal tradição, perceberemos que as mulheres (e homens) loiros, de olhos claros e bochechas coradas são muito mais comuns nestes lugares do que se imagina. Os Grimm são alemães, Perrault é francês e Andersen dinamarquês. Passear pelas ruas de Paris, por exemplo, é encontrar com os novos habitantes africanos, árabes e asiáticos, mas também é se deparar com muitas destas princesas, com muitas mulheres dentro deste padrão. Quantas mulheres que aprendemos desde cedo a admirar como beldades podemos encontrar caminhando pelas cidades destes países, ou até mesmo, te cobrando um café sem nenhuma pretensão de virar estrela, cantora, modelo, atriz ou manequim. E isso, simplesmente pelo fato de que para esta beldade, ela é o que é, e por terem tantas outras com fenótipo semelhante, ela não é (e nem deveria ser, como ocorre no Brasil), especial, ou está acima de qualquer outra beleza, de qualquer verdade, se é que verdade ainda existe. 




Elas se parecem com princesas porque estas histórias vêm dos países onde elas nasceram. Este é o padrão por lá, muito natural... Lindas!

Uma colega do curso de inglês que vive na região nordeste do país e que tinge de amarelo e escova seus cabelos cacheados diariamente, mesmo vivendo em frente uma maravilhosa praia, comentou comigo: "Parece que para todos os lugares que olho, há pessoas que saíram de um filme de tão lindas que são". Ela é dez anos mais jovem do que eu e vamos pensar que em épocas audiovisuais como a nossa, faz tempo que o filme se tornou o substituto dos contos de fadas para as novas gerações. Ainda que haja um movimento forte de retorno da contação de histórias. Então, fiquei absolutamente chocada com a maneira como aquela moça tão inteligente, estudante de medicina, se via num mundo de fadas, onde todos são perfeitos porque correspondem a este padrão. Mais ainda, como é difícil, demorado e doloroso conseguir se desvincular desta ideia tão introjetada em nós dia a dia. Quem nunca viu um conhecido comentar a respeito de um bebezinho: "Nossa, que lindo! Que olhos azuis!". Como se os olhos azuis, por si só, já fossem o atestado de beleza daquela criança. Tenho uma amiga de infância, loira dos olhos verdes, que brincar com ela, era ouvir os vizinhos passando e dizendo isso a todo momento. Ela cresceu, ou melhor, virou mulher e não se transformou na Cinderela que todos esperavam. Ocorreu com ela, uma espécie de "Patinho Feio", às avessas. E ela que cresceu ouvindo que era linda, pelo menos deve ter uma boa autoestima hoje em dia.
E, acredito que muitas outras mulheres negras e mestiças, vivi o "Patinho Feio" literalmente. Não virei cisne, mas era muito estranho ouvir os mesmos meninos que viraram homens contrariando as sua falas de anos atrás. Sim, meninos negros e brancos são criados para detestar as meninas negras. A gente pode não perceber, mas é. Crescem amando as mulheres que saem em capas de revistas masculinas e, atualmente, as "panicats" (não me preocuparei nem em checar a grafia desta palavra), assistentes de palco que mesclam a mulher malhada e o ideal travesti. Na falta do que atazanar, sempre terá uma menininha na sua para ser a vítima da vez. Não sei se é porque os meninos brancos maltratam os negros e eles tem que descontar em alguém e não pode ser na princesa, nas meninas brancas lindas e ajudantes das professoras, mas isso é muito comum. Lembro de uns três meninos negros pelos quais me apaixonei entre os oito e doze anos e eles sempre ficavam com as meninas brancas, apesar de dois deles serem próximos de mim, de andarmos de bicicleta juntos, de conversarmos coisas próprias daquele universo infanto-juvenil.
É que os modelos de princesas deles, apesar de alguns meninos nem gostarem assim de contos de fadas, também são as donzelas brancas, puras, indefesas, inocentes... Quem nunca ouviu um amigo negro brincando com a frase "de preto já basta eu!". A gente ri, mas é de chorar, porque este pensamento é transmitido às crianças de várias maneiras, das ilustrações de livros infantis aos filmes que recontam as histórias de fadas e princesas. Ah, sem falar nos nossos exemplares jogadores de futebol...
Não me espanta, assim, que muitas mulheres negras se casem com o primeiro estrangeiro que a tratem melhor, que a chamem de linda, ainda que com uma intenção somente sexual e não de dar continuidade a um relacionamento. Joel Zito Araujo, nos fala sobre isso em seu excelente documentário "Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado", de 2010, que tive o prazer de assistir no Espaço Clariô de Teatro:

"Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado", 2010, de Joel Zito Araujo.

O documentário traz várias histórias de mulheres negras que se envolveram com estrangeiros, seja para construção de uma vida em comum, seja para acalmar a carne. Ele é profundo e vale o tempo de assisti-lo e as reflexões que ele proporciona.

Ainda sobre este assunto, gostaria de trazer a referência do ótimo livro da Prof. da USP Leste Gislene Ap. dos Santos, "Mulher Negra, Homem Branco", de 2004, Editora Pallas, no qual ela reflete a partir do conto "O Patinho Feio", de Andersen, sobre a figura do homem branco como, possivelmente, a única possibilidade da mulher negra ser aceita nesta sociedade formatada pelo e para o homem branco, onde as mulheres ocupam lugares de subalternidade e de objetos de desejo e que, no caso da mulher negra, estes dois "usos" são visivelmente potencializados. Quero compartilhar alguns trechos deste livro:

"Se a função dos contos de fada é proporcionar a vitória moral da violência contra o mal, como se sente a criança negra que sabe que, ao final, perderá e continuará humilhada? Essas crianças e mulheres vivem a experiência do fracasso, da rejeição, do desamparo, da orfandade. Por isso, penso que este conto torne aparente para crianças e mulheres negras o jogo duplo de promessa/esperança e frustração se configurando como uma experiência de dubiedade e de duplicidade já que ser aceita implica negar-se o que se é. A dubiedade enlouquece porque obriga ao processo esquizofrênico de sermos e não sermos o que somos..."p. 48.

"O conto de fadas Cinderela mescla de maneira muito adequada dois arquétipos fundamentais para a compreensão da posição social e psíquica das mulheres negras: o sentimento de orfandade (com todos os elementos de rejeição, abandono, baixa estima) e o desejo de ser salva".p. 54.

Só agora, beirando os 34 anos, percebo o quanto todos estes contos de fadas me fizeram mal. Vejo que nenhum príncipe veio me salvar e que mesmo os príncipes brancos aos quais se refere Gislene, nem me conheciam de verdade, vieram com toda a sua carga conceitual sobre a mulher negra, muito pautada no exotismo, na sensualidade, sexualidade, no senso comum, ainda que não seja nada exótico ser negro num país em que mais de 50% de sua população é de negros e pardos. A moral da história foi eclipsada pelo desejo de ser parecida com a princesa. Talvez seja hora de contar para as nossas meninas histórias não sobre donzelas, mas sobre mulheres. Histórias que contenham a mesma magia, mas que possuam a força de mulheres que conseguem resolver as suas vidas e seus problemas, ou ainda, que não fiquem esperando que o príncipe tome uma atitude. Afinal de contas, tem muito mais sapo que príncipe por aí.

Estou começando um trabalho chamado "Também quero ser sexy" que vai demorar para ficar pronto, mas que passa por esta ideia de sensualidade principesca a qual estamos acostumados. 

Por ora, acabo aqui apresentando um mito sobre Iansã de que gosto muito e que acho que é um dos caminhos para criar mulheres fortes. Não abandonemos as donzelas, mas apresentemos as guerreiras: parâmetros são sempre bons para formação de senso crítico.

 Casamento de Iansã e Ogun
Ogum foi um dia caçar na floresta.
Ele ficou na espreita e viu um búfalo vindo em sua direção.
Ogum avaliou logo à distância que os separava e preparou-se para matar o animal com a sua espada.
Mas viu o búfalo parar e, de repente, baixar a cabeça e despir-se de sua pele. Desta pele saiu uma linda mulher.
Era Iansã, vestida com elegância, coberta com panos, um turbante luxuoso amarrado à cabeça e ornada de colares e braceletes.
Iansã enrolou sua pele e seus chifres, fez uma trouxa e escondeu num formigueiro.
Partiu, em seguida, num passo leve, em direção ao mercado da cidade, sem desconfiar que Ogum tinha visto tudo.
Assim que Iansã partiu, Ogum apoderou-se da trouxa, foi papa casa, guardou-a no celeiro de milho e seguiu, também, para o mercado.
Lá, ele encontrou a bela mulher e cortejou-ª
Iansã era bela, muito bela, era a mais bela mulher do mundo.
Sua beleza era tal que se um homem a visse, logo a desejaria.
Ogum foi subjugado e pediu-a em casamento.
Iansã apenas sorriu e recusou sem apelo.
Ogum insistiu e disse-lhe que a esperaria.
Ele não duvidava de que ela aceitasse sua proposta.
Iansã voltou à floresta e não encontrou seu chifre nem sua pele.
Ah! Que contrariedade! Que teria se passado? Que fazer?
Iansã voltou ao mercado, já vazio, e viu Ogum que a esperava.
Ela perguntou-lhe o que ele havia feito daquilo que ela deixara no formigueiro.
Ogum fingiu inocência e declarou que nada tinha a ver, nem com o formigueiro nem com o que estava nele.
Iansã não se deixou enganar e disse-lhe:
Eu sei que escondeu minha pele e meu chifre.
Eu sei que você se negará a me revelar o esconderijo.
Ogum, vou me casar com você e viver em sua casa.
Mas, existem certas regras de conduta para comigo.
Estas regras devem ser respeitadas, também, pelas pessoas da sua casa.
Ninguém poderá me dizer: Você é um animal!
Ninguém poderá utilizar cascas de dendê para fazer fogo.
Ninguém poderá rolar um pilão pelo chão da casa
Ogum respondeu que havia compreendido e levou Iansã.
Chegando em casa, Ogum reuniu suas outras mulheres e explicou-lhes como deveriam comportar-se.
Ficara claro para todos que ninguém deveria discutir com Iansã, nem insultá-la.
A vida organizou-se.
Ogum saía para caçar ou cultivar o campo.
Iansã, em vão, procurava sua pele e seus chifres.
Ela deu à luz uma criança, depois uma segunda e uma terceira
Ela deu à luz a nove crianças.
Mas as mulheres viviam enciumadas da beleza de Iansã.
Cada vez mais enciumadas e hostis, elas decidiram desvendar o mistério da origem de Iansã.
Uma delas conseguiu embriagar Ogum com vinho de palma.
Ogum não pôde mais controlar suas palavras e revelou o segredo.
Contou que Iansã era, na realidade, um animal;
Que sua pele e seus chifres estavam escondidos no celeiro de milho.
Ogum recomendou-lhes ainda:
Sobretudo não procurem vê-los, pois isto a amedrontará.
Não lhes digam jamais que é um animal! Depois disso, logo que Ogum saía para o campo, as mulheres insultavam Iansã:
Você é um animal! Você é um animal!!
Elas cantavam enquanto faziam os trabalhos da casa:
Coma e beba, pode exibir-se, mas sua pele está no celeiro de milho!
Um dia, todas as mulheres saíram para o mercado.
Iansã aproveitou-se e correu para o celeiro.
Abriu a porta e, bem no fundo, sob grandes espigas de milho, encontrou sua pele e seus chifres.
Ela os vestiu novamente e se sacudiu com energia.
Cada parte do seu corpo retomou exatamente seu lugar dentro da pele.
Logo que as mulheres chegaram do mercado, ela saiu bufando.
Foi um tremendo massacre, pelo qual passaram todas.
Com grandes chifradas Iansã rasgou-lhes a barriga, pisou sobre os corpos e rodou-os no ar.
Iansã poupou seus filhos que a seguiam chorando e dizendo:
Nossa mãe, nossa mãe! É você mesma?
Nossa mãe, nossa mãe! Que você vai fazer?
Nossa mãe, nossa mãe! Que será de nós?
O búfalo os consolou, roçando seu corpo carinhosamente no deles e dizendo-lhes:
Eu vou voltar para a floresta; lá não é bom lugar para vocês.
Mas, vou lhes deixar uma lembrança.
Retirou seus chifres, entregou-lhes e continuou:
Quando qualquer perigo lhes ameaçar, quando vocês precisarem dos meus conselhos, esfreguem estes chifres um no outro. Em qualquer lugar que vocês estiverem, em qualquer lugar que eu estiver, escutarei suas queixas e virei socorre-los. Eis por que dois chifres de búfalo estão sempre no altar de Iansã. 


Ao longo do ano, a série "Também quero ser sexy", terá o seu processo de trabalho compartilhado neste blog.

Feliz dia da Mulher!

2 comentários:

  1. Renata, obrigada pelo texto! Antes de ontem estava eu a pensar justamente sobre a influência dos contos de fadas na nossa formação... E vem você e sintetiza com um texto riquíssimo, sinergia total.

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  2. Jenyffer,
    Comentário precioso, obrigada!

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